Existe uma expectativa bastante antiga em torno do comportamento feminino. Espera-se que sejamos agradáveis. Não necessariamente felizes ou satisfeitas, mas simplesmente agradáveis. Precisamos acolher, compreender, ceder, conciliar e estar disponíveis o tempo inteiro. E, quando uma mulher começa a estabelecer limites, é comum que sua mudança seja percebida menos como um exercício de autonomia e mais como um problema.
Isso acontece nos diversos cenários em que transitamos, desde as relações amorosas e familiares até o trabalho. A mulher que antes resolvia tudo passa a ser chamada de egoísta quando começa a recusar algumas demandas e decide preservar seu tempo. Aquela que costumava evitar conflitos passa a ser considerada difícil quando começa a opinar e discordar.
Há mulheres que passam muitos anos aprendendo a agradar. Algumas foram ensinadas desde cedo a considerar as necessidades dos outros antes das próprias, inclusive associando a ideia de que, para serem amadas, precisavam se comportar de determinada maneira. Tornam-se, assim, especialistas em escolher cuidadosamente as palavras, dizer sempre “sim” e evitar conflitos.
Na clínica, não é incomum encontrar mulheres que chegam à terapia justamente quando já não conseguem sustentar esse funcionamento. Estão cansadas, ressentidas e, muitas vezes, confusas porque, mesmo diante de todo o esforço, nada parece ser suficiente. O limite, que poderia ser uma forma de cuidado, é vivido como uma ameaça à relação. Como se frustrar alguém significasse necessariamente decepcioná-lo ou perder seu amor.
Essa é uma experiência importante de ser elaborada. Nem toda frustração provocada por um limite significa que fizemos algo errado. As pessoas têm o direito de não gostar das nossas escolhas, assim como nós temos o direito de fazer escolhas que elas não aprovam. Uma relação suficientemente madura precisa comportar essa diferença sem transformar toda discordância em ofensa.
Quero ressaltar que isso não significa que toda mulher que se coloca em primeiro lugar esteja necessariamente agindo de maneira saudável. Limites também podem ser usados de forma agressiva, assim como podem existir comportamentos egoístas e desrespeitosos. Autonomia não é uma autorização para ignorar o outro. Mas também precisamos ter cuidado para não chamar de egoísmo aquilo que é simplesmente uma mulher deixando de se responsabilizar por tudo e por todos.
Existe uma diferença importante entre ser uma pessoa que machuca os outros e ser uma pessoa que já não está disponível para atender a todas as expectativas que depositaram sobre ela. Quando você começa a dizer não, algumas pessoas podem se decepcionar ou dizer que você está diferente. Mas mudar não significa necessariamente piorar. Pode significar apenas que uma posição que funcionou durante muito tempo deixou de fazer sentido.
É necessário entender que não podemos construir nossa vida apenas a partir daquilo que mantém todos ao nosso redor satisfeitos. Em algum momento, precisamos nos perguntar o que queremos, o que conseguimos sustentar e, principalmente, o que já não queremos mais fazer. A falta de compreensão do outro sobre nosso comportamento é um dos preços que pagamos pela maturidade e pela autonomia.
E, às vezes, a mulher que parece ter se tornado a vilã da história só descobriu que também poderia escrever a própria parte dela.
Com carinho,
Raquel Pedrosa 🌷