Na nossa cultura, existe uma dificuldade particular em reconhecer que a relação com a própria mãe também pode ter deixado feridas. Para muitas mulheres, admitir que algo doeu parece uma forma de ingratidão, como se falar das ausências significasse desconsiderar os sacrifícios, os cuidados e tudo aquilo que essa mãe fez ao longo da vida.
Crescemos ouvindo que mãe é quem ama incondicionalmente, que faz tudo pelos filhos e que merece reconhecimento por suas renúncias. Há verdade em muitas dessas experiências, mas essa imagem idealizada também deixa pouco espaço para uma realidade mais complexa: entender que as mães são pessoas comuns, atravessadas por suas histórias, seus limites, seus conflitos e suas próprias dores. E, como qualquer pessoa, podem falhar nas relações que constroem.
Uma mãe pode ter amado a filha e, ainda assim, ter sido incapaz de acolher determinadas emoções. Pode ter se esforçado para oferecer uma vida melhor e, ao mesmo tempo, ter sido excessivamente crítica, controladora ou pouco disponível afetivamente. Reconhecer essas possibilidades significa admitir que o amor, embora importante, não impede que uma relação também produza sofrimento.
Em minha prática clínica, identifico que a maternidade pode ampliar a compreensão da mulher sobre a própria mãe. Ao experimentar o cansaço, as dúvidas e as exigências de cuidar de uma criança, algumas mulheres passam a compreender dificuldades que antes não entendiam. Para outras, a maternidade escancara aquilo que faltou em sua infância. Às vezes, as duas percepções coexistem em uma mesma relação.
E é aqui que precisamos entender que não é necessário escolher entre a mãe idealizada e a mãe culpada por tudo. A mesma pessoa, humana e, por isso, falha, pode ocupar esses dois lugares em nossa história. Sei que não é uma equação fácil de compreender, até porque exige suportar as contradições dos vínculos afetivos, o que nem sempre encontra espaço em uma cultura que ainda espera que as mães sejam vistas como figuras naturalmente boas.
Ressalto que entender as circunstâncias em que uma mãe viveu pode ajudar a dar sentido a determinadas atitudes, mas não obriga uma filha a negar os efeitos que elas tiveram. Conhecer a trajetória de uma mãe, inclusive as dificuldades que ela enfrentou, não torna menos legítima a experiência da filha. A compreensão pode ampliar nosso olhar, mas não precisa funcionar como justificativa para tudo.
Também não existe uma única resposta para o que fazer com essas marcas. Legitimar o sofrimento não significa necessariamente romper a relação, assim como preservar o vínculo não exige fingir que nada aconteceu. Há mulheres que encontram maneiras de reconstruir a convivência; outras precisam estabelecer limites mais claros. Em algumas relações, a distância se torna necessária. O caminho depende da singularidade de cada relação, das condições presentes e daquilo que é possível construir.
Amar a própria mãe não exige uma versão editada da sua história. É possível reconhecer o cuidado recebido, perceber as limitações dela e, ainda assim, dar nome ao que doeu, acolhendo aquilo que machucou você. Uma coisa não apaga a outra.
Talvez uma parte importante desse processo seja compreender que as falhas das nossas mães não apagam o amor que sentimos por elas, assim como validar o amor que recebemos não nos obriga a silenciar sobre o que nos faltou. Entre a idealização e a condenação, existe a possibilidade de olhar para essa relação com mais humanidade, reconhecendo tanto os seus limites quanto a sua importância na vida que construímos.
Afinal, elaborar a própria história não significa deixar de amar a mãe que tivemos, mas permitir que a filha que fomos também tenha voz nela.
Com carinho,
Raquel