Colabore com o Eufemea
Advertisement

Mãe demais para não me preocupar com o meu voto e o futuro da minha filha

Quando penso no meu voto, não consigo separá-lo da mulher que sou, da psicóloga que trabalha com o sofrimento humano e, sobretudo, da mãe que deseja que sua filha cresça em uma sociedade menos desigual.

Sim, ser mãe me fez mais feminista e mudou a maneira como penso sobre o futuro. Não apenas sobre o futuro da minha filha, mas sobre o país em que ela vai crescer, as oportunidades que terá, os direitos que precisará defender e as pessoas que encontrará pelo caminho.

Destaco aqui que não foi a maternidade que me tornou uma pessoa política. Como psicóloga e professora, eu já tinha opiniões políticas, valores e convicções construídos a partir da minha prática. A maternidade apenas tornou algumas das consequências das decisões políticas ainda mais concretas para mim.

É difícil pensar no futuro de uma criança sem pensar em educação pública, acesso à saúde, segurança, alimentação, proteção contra a violência e oportunidades. É difícil desejar que uma menina cresça sabendo que pode ocupar diferentes espaços no mundo sem considerar as políticas que protegem os direitos das mulheres. E é impossível falar em oportunidades sem reconhecer que elas ainda são distribuídas de maneira profundamente desigual entre crianças ricas e pobres, brancas e negras.

Por isso, não consigo tratar uma eleição como uma simples disputa entre pessoas. O voto escolhe representantes, mas também ajuda a definir quais prioridades terão espaço no orçamento público, quais direitos serão protegidos e quais problemas receberão atenção do Estado.

É claro que não tenho a ilusão de que qualquer candidato eleito resolverá todos os problemas do Brasil. A política não oferece garantias dessa natureza, e desconfiar de promessas fáceis também faz parte da responsabilidade de quem vota. Mas reconhecer os limites dos políticos não significa ignorar as diferenças entre seus projetos, suas propostas e suas concepções sobre o papel do Estado.

É justamente por isso que precisamos olhar para além dos discursos de campanha. Como cada candidato pretende enfrentar a pobreza? Que políticas defende para a saúde pública, a primeira infância e a proteção das mulheres? Como compreende os direitos humanos? Que consequências suas propostas podem produzir para quem já vive em condições de maior vulnerabilidade?

Essas perguntas importam porque as decisões políticas não atingem todas as pessoas da mesma maneira. Uma mudança na política de assistência social pode ter um peso muito diferente na vida de uma família que depende daquele recurso e na de quem dispõe de outras formas de proteção. Uma escola pública de qualidade pode representar uma oportunidade decisiva para uma criança que não teria acesso à educação privada. Uma política de enfrentamento à violência pode significar proteção concreta para uma mulher que não consegue sair sozinha de uma situação de risco.

Quando discutimos política, estamos falando de vidas reais. E é aqui que gostaria de fazer um convite, especialmente a quem ainda está indeciso.

Sei que existe cansaço. Há quem esteja decepcionado com a política, revoltado com partidos e descrente das promessas que se repetem a cada eleição. Esse sentimento não precisa ser ignorado nem deslegitimado, mas precisamos ter cuidado para que a raiva não decida por nós.

Votar em branco ou anular o voto pode expressar insatisfação, mas não impede que outras pessoas decidam quem ocupará o poder. No segundo turno, quando a escolha se concentra em duas candidaturas, é importante compreender as diferenças entre elas e avaliar o que cada projeto representa para o país que desejamos construir. Abster-se de escolher não elimina as consequências da decisão coletiva.

Como mãe, penso na minha filha, mas não apenas nela. Penso nas meninas que crescem sem acesso adequado à educação, nas mulheres que enfrentam a violência sem encontrar proteção, nas mães que precisam escolher entre trabalhar e cuidar dos filhos, nas crianças que vivem em famílias sem condições de garantir o básico e nas mulheres negras que continuam enfrentando desigualdades históricas.

Não quero um futuro melhor apenas para a minha filha. Quero que ela viva em um mundo no qual outras crianças também tenham oportunidades, no qual outras mulheres possam exercer sua autonomia e no qual a dignidade humana não dependa da renda, da cor da pele ou do lugar onde alguém nasceu.

A maternidade me ensinou que o futuro dos nossos filhos não será construído apenas dentro de casa. Também será construído nas instituições públicas, nas leis e nas escolhas que fazemos coletivamente. Tenho consciência de que meu voto não é uma garantia de que esse futuro existirá, mas é uma das formas que tenho de lutar para construí-lo.

Eu sei que desejamos que nossos filhos se tornem homens e mulheres do bem, mas precisamos ensiná-los que o bem não se limita a cuidar de si mesmos. Precisamos que compreendam que seus direitos foram conquistados e precisam ser preservados, e que, por viverem em sociedade, a vida das outras pessoas também importa.

Com carinho,

Raquel Pedrosa 🌷

Foto de Raquel Pedrosa

Raquel Pedrosa

Psicóloga clínica formada pela UFAL (CRP 15/3938). Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza. Professora universitária no Centro Universitário de Maceió.
plugins premium WordPress