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Nem toda mulher eleita representa as mulheres

Foto gerada pela IA

Publicamos ontem, no perfil da Eufêmea no Instagram, as mulheres eleitas que irão representar Alagoas. Em um país onde a política ainda é dominada por homens, ampliar a participação feminina é uma necessidade democrática. Mas há uma pergunta que não pode ficar de fora dessa discussão: todas essas mulheres representam, de fato, os interesses das mulheres?

Não. Nem todas. A presença feminina nos espaços de poder, embora fundamental, não garante, por si só, um compromisso com a luta por direitos, igualdade e justiça social.

Durante muito tempo, as mulheres foram excluídas das decisões políticas. O direito ao voto, por exemplo, foi uma conquista de décadas de mobilização. Chegar aos espaços de poder nunca foi simples. Por isso, cada mulher que rompe essa barreira carrega consigo o peso de uma história de exclusão. Mas essa conquista não pode ser confundida com uma autorização para que qualquer mulher eleita seja tratada como representante de todas nós.

Mulheres vivem realidades diferentes, atravessadas por classe social, raça, sexualidade, território e tantas outras desigualdades. Essas diferenças também se manifestam na política. Uma mulher branca, rica e alinhada aos interesses das elites econômicas pode ter prioridades muito diferentes das de uma mulher negra, periférica, trabalhadora e que depende dos serviços públicos para sobreviver. O fato de ambas serem mulheres não elimina os conflitos entre seus projetos políticos.

Não basta que determinados grupos estejam presentes nos espaços de decisão. É preciso perguntar quais desigualdades estão sendo enfrentadas e quem, de fato, se beneficia das decisões tomadas. Na prática, isso significa observar como essas mulheres votam, quais projetos defendem, a quem destinam suas prioridades e como se posicionam diante de pautas que afetam diretamente a vida das mulheres.

O que fazem quando uma proposta busca combater a violência de gênero? Como se posicionam diante dos direitos sexuais e reprodutivos? Defendem políticas públicas para mulheres negras, mães solo, trabalhadoras domésticas e mulheres em situação de vulnerabilidade? Reconhecem a desigualdade salarial, a sobrecarga do trabalho de cuidado e a sub-representação feminina? Ou reproduzem discursos e práticas que sustentam as mesmas estruturas responsáveis pela exclusão histórica das mulheres?

Essas perguntas importam porque a política não se resume à identidade de quem ocupa o cargo. Ela se revela nas escolhas feitas, nas alianças construídas e nos direitos que se decide proteger ou negar.

A ativista bell hooks, ao pensar o feminismo como uma luta contra o sexismo e as estruturas de dominação, também nos ajuda a compreender que não existe emancipação verdadeira quando a conquista de algumas mulheres depende da manutenção da opressão de outras.

Uma mulher pode ocupar um espaço historicamente negado às mulheres e, ainda assim, defender políticas que aprofundam desigualdades. Pode ser eleita e votar contra direitos das trabalhadoras. Pode conquistar visibilidade enquanto ignora a violência que atinge mulheres negras e periféricas. Pode usar a própria condição feminina como argumento de autoridade, sem assumir qualquer compromisso com uma agenda de igualdade.

Precisamos, sim, de mais mulheres nos parlamentos, nas prefeituras, nos governos e nos espaços de decisão. Mas precisamos também discutir quais mulheres chegam, quais barreiras enfrentam, quais interesses representam e quais projetos ajudam a construir.

A representatividade não pode funcionar como um salvo-conduto. Ser mulher não torna ninguém automaticamente feminista, assim como não transforma toda decisão tomada por uma mulher em uma decisão favorável às mulheres.

Nosso papel não é apenas celebrar a presença de mulheres em espaços de poder, mas também questionar o que essa presença significa. É reconhecer conquistas sem abandonar a crítica. É olhar para os resultados eleitorais e, para além dos nomes e dos números, perguntar o que as eleitas farão com o poder que receberam.

Nem toda mulher representa as mulheres.

Foto de Raíssa França

Raíssa França

Cofundadora do Eufêmea, Jornalista formada pela UNIT Alagoas e pós-graduanda em Direitos Humanos, Gênero e Sexualidade. Em 2023, venceu o Troféu Mulher Imprensa na categoria Nordeste e o prêmio Sebrae Mulher de Negócios em Alagoas.
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