Estou no Instagram: @raissa.franca
Desde sábado, estou com uma sensação difícil de explicar. É como se alguma coisa dentro de mim tivesse entrado em estado de alerta e não conseguisse mais desligar. Tenho sentido o peito doer, o corpo reagir, a cabeça tentar organizar uma realidade que, sinceramente, tem me parecido cada vez mais difícil de compreender. Mas estou sentindo, no fundo, uma espécie de luto pelo que nos transformamos.
Os ânimos estão acirrados, o desespero aparece, o descontrole também. E, no meio disso tudo, parece que perdemos a capacidade de reconhecer a humanidade do outro. Ou melhor: que humanidade? Aqui, não estou falando de Direita, Esquerda ou Centro. Estou falando de pessoas.
Tem um ponto que acho extremamente importante: no fundo, talvez não saibamos lidar com aquilo que escapa da nossa própria visão de mundo. Gostamos de pensar que somos tolerantes, democráticos e respeitosos, mas, muitas vezes, essa tolerância tem limites bem definidos: aceitamos o outro desde que ele não nos confronte demais, não questione nossas certezas, não ameace nossos privilégios e não coloque em xeque a imagem que construímos de nós mesmos. Então, essa ideia de que devemos respeitar as diferenças é linda no discurso, mas, na prática, a história é bem diferente.
Cada ser humano é atravessado por suas próprias questões e, mesmo que outra pessoa tenha vivenciado algo “parecido”, jamais será da mesma forma. Temos histórias, referências, condições materiais, afetos, medos e oportunidades diferentes. Tudo isso interfere na maneira como interpretamos o mundo, tomamos decisões e atribuímos sentido ao que nos acontece.
Nessa questão voltada à política, votamos também por afinidade, por identificação. E isso nos revela enquanto pessoas. Podemos generalizar? Jamais! Existem pessoas que votam porque não conhecem a fundo os candidatos, suas propostas e seus históricos. Outras são influenciadas pelo ambiente familiar, pelas relações de trabalho, pelas informações a que têm acesso ou pela realidade em que estão inseridas. Há quem vote por interesses econômicos, por experiências pessoais, por convicções ideológicas ou até pelo medo do que pode acontecer se o outro lado vencer.
No entanto, seria ingênuo acreditar que nossas escolhas políticas não dizem nada sobre nós. Elas podem revelar os valores que priorizamos, os problemas que consideramos urgentes, os direitos que julgamos fundamentais e até as realidades que temos dificuldade de enxergar. O voto não conta a história inteira de ninguém, mas pode nos dar pistas sobre aquilo que essa pessoa considera importante para o futuro coletivo.
É aí que surge uma pergunta que considero fundamental: quanto das nossas escolhas políticas nasce de uma reflexão crítica sobre o mundo que queremos construir e quanto vem da necessidade de pertencer, da identificação com determinados grupos ou da rejeição àquilo que nos causa medo e desconforto?
E aí esbarramos no outro. Naquele que amamos, com quem convivemos, dividimos a mesa, a rotina, os afetos e a história. Alguém que, apesar de tudo o que temos em comum, não pensa como nós, não vota como nós e enxerga o mundo por outra perspectiva. O que fazemos com isso? Quem nos tornamos diante dessa diferença?
Honestamente, é difícil. Imagine eu, uma mulher feminista, negra, nordestina, que luta pelo fim do machismo, da LGBTfobia, do capacitismo e do racismo, que defende políticas públicas e programas sociais para pessoas em situação de vulnerabilidade, me deparar com alguém próximo que questiona essas pautas, deslegitima essas lutas ou não reconhece a importância desses direitos. Como separar o afeto que sinto por essa pessoa daquilo que suas posições representam para mim? Como conciliar a história que construímos com as diferenças que, em determinados momentos, parecem tocar justamente naquilo que considero inegociável?
Falamos tanto em respeitar as diferenças, mas, muitas vezes, esse discurso não resiste ao primeiro conflito que nos atravessa pessoalmente. É bonito defender a diversidade quando ela está distante, quando não ameaça nossas certezas ou quando não precisamos negociar com ela dentro das nossas próprias relações. O difícil é sustentar esse respeito quando a divergência vem de alguém que amamos, quando descobrimos que uma pessoa tão próxima de nós enxerga como aceitável algo que consideramos injusto, ou quando suas escolhas revelam valores que não imaginávamos que ela pudesse defender.
Somente nas últimas semanas, uma amiga perdeu dois contratos após falar, no Instagram, sobre a importância de votar no segundo turno. Ela não citou nenhum candidato, mas o cliente interpretou que sim. Também escutei várias falas transfóbicas de uma pessoa e vi gente adotando uma postura arrogante dizendo que não iria procurar saber de nada porque ela já era inteligente demais.
É nesse momento que a diferença deixa de ser um conceito abstrato e passa a ter nome, rosto e história. Não vamos romantizar: não somos bons em lidar com as diferenças. Elas tocam em camadas profundas da nossa formação. Muitas vezes, preferimos acreditar naquilo que confirma nossas convicções a nos permitir questionar o que sempre tomamos como verdade. É mais confortável permanecer onde nossas certezas são acolhidas do que nos arriscar em um território capaz de colocar nossas ideias em xeque.
O que é inaceitável para você? E por quê? Será que os nossos limites éticos permanecem os mesmos quando a situação envolve alguém de quem gostamos ou um grupo com o qual nos identificamos? De onde vem tanto ódio? Por que ele existe? Achamos que tudo isso é sobre o outro, mas eu te garanto: é sobre você.
São respostas que eu não posso dar por você. Talvez nem você tenha todas elas agora. Mas acredito que precisamos começar a fazer essas perguntas, mesmo quando as respostas nos colocam diante de contradições que preferiríamos não enxergar.
Existe uma diferença entre saber o que pensamos e compreender por que pensamos dessa maneira. Entre defender uma convicção e estar disposto a examinar as experiências, os medos, os preconceitos e os interesses que ajudaram a construí-la. Esse exercício exige coragem, sobretudo quando percebemos que nem sempre somos tão coerentes quanto gostaríamos de acreditar.
Acredito que falta disposição para olhar para dentro antes de apontar para fora. Para reconhecer que também somos produto do meio em que crescemos, das relações que construímos, dos privilégios que talvez nunca tenhamos questionado e das experiências que nos faltaram. Falta compreender que não estamos imunes a preconceitos, que nossas certezas não são necessariamente verdades universais e que a nossa capacidade de reconhecer uma injustiça não deveria depender de quem a sofre.
Eu quero (e luto por) uma sociedade melhor: mais humana, justa, acessível e livre de preconceitos e violências. Mas não quero que a indignação com o mundo me faça perder justamente aquilo que desejo preservar nele: a minha humanidade.