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Quando um amigo realiza um sonho, a gente também volta a acreditar nos nossos

Nesses tempos difíceis, quanto custa sonhar? E quanto custa realizar os próprios sonhos?

No sábado, dia 10 de outubro, meu melhor amigo, Berg Dantas, realizou um sonho que não começou naquele dia. Começou muito antes, ainda na adolescência, quando encontrou no girl group The Pussycat Dolls uma espécie de afago, um lugar onde podia ser quem era, mesmo sem compreender completamente o que isso significava.

Naquela época, Berg ainda não havia entendido que era um homem gay. Mas, de alguma forma, já sentia que existia algo que não batia entre quem ele era e a vida que a sociedade parecia ter escolhido para ele. Talvez a música, a dança e aquelas mulheres que ocupavam o palco com tanta liberdade tenham oferecido a ele um lugar de reconhecimento. Um espaço onde o corpo podia falar, onde os gestos não precisavam ser contidos e onde, por alguns minutos, era possível imaginar outras formas de existir.

Aos 34 anos, Berg viajou sozinho para Manchester, na Inglaterra, para realizar um sonho que, para muita gente, talvez não faça sentido. Mas, para mim, faz todo o sentido do mundo. Ele foi assistir ao show de seu girl group favorito e levou consigo um cartaz dizendo que vinha do Brasil. Estava bem na frente do palco quando foi chamado para subir e dançar com elas.

Quem assistiu aos vídeos viu um homem entregando uma performance impecável, dançando como quem conhece cada movimento, cada gesto, cada detalhe. Muita gente ficou chocada com a desenvoltura, com a precisão, com a maneira como ele ocupou aquele palco. Mas eu, que conheço Berg, vi outra coisa.

Vi o adolescente que tantas vezes dançou em frente ao espelho do próprio quarto, em um bairro considerado periférico de Maceió, sem imaginar que, um dia, estaria ali. Vi aquele menino que talvez não soubesse exatamente onde caberia no mundo, mas que já encontrava na música uma maneira de se aproximar de si mesmo. Vi o Berg que tantas vezes chegou para mim e bateu no peito dizendo que realizaria aquele sonho. Ainda não sabia como, mas que realizaria.

Existem sonhos que não nascem grandes. Nascem pequenos, escondidos, quase secretos. Às vezes, cabem em um quarto, em uma coreografia repetida dezenas de vezes, em uma música ouvida até decorar cada segundo. Crescem com a gente, atravessam nossas dúvidas e esperam, silenciosamente, que um dia tenhamos a oportunidade de alcançá-los.

Berg não realizou apenas o sonho de assistir a um show. Ele ocupou aquele palco sendo quem é. Um homem gay, nordestino, brasileiro, que saiu de Maceió e atravessou o oceano para dançar diante de mulheres que fizeram parte de sua história. Sem precisar diminuir os próprios gestos, justificar seus movimentos ou pedir desculpas pela alegria que sentia.

Ontem, eu disse ao Berg: “Você é, por si só, uma resistência, um posicionamento. Ser quem se é em um mundo assim, sobretudo sendo um homem gay, é mostrar que é possível vencer a cada dia”.

E penso que realizar esse sonho foi também uma forma de abraçar aquele adolescente que um dia dançou sozinho no quarto. De dizer a ele que não havia nada de errado em gostar do que gostava, em se emocionar com aquelas músicas, em encontrar naquelas mulheres uma referência de liberdade. Que ele não precisava ter todas as respostas naquela época para merecer viver a vida que desejava.

Nesses dias difíceis, o quanto representa ver os nossos amigos realizando sonhos? Para mim, esse momento reacendeu uma esperança que, confesso, às vezes parece tão difícil de sustentar. A esperança de que a vida ainda guarda coisas bonitas, mesmo quando o mundo insiste em nos apresentar tantas razões para o contrário.

A esperança de que não precisamos abandonar tudo aquilo que nos fez vibrar na juventude para nos tornarmos adultos. E de que crescer também pode ser isso: ter condições de voltar aos lugares que nos fizeram sonhar e, dessa vez, vivê-los de verdade.

Mas, no sábado, vendo Berg dançar, lembrei que os sonhos também são uma maneira de continuar. Não resolvem as dificuldades, não apagam as desigualdades e não tornam o mundo menos cruel. Ainda assim, nos oferecem uma fresta. E, às vezes, é por uma fresta que a luz começa a entrar.

Berg realizou um sonho dele, mas, sem saber, também me devolveu um pouco da coragem de sonhar com os meus. Que nunca nos falte a liberdade de sermos quem somos, nem a coragem de voltar para buscar aquilo que, um dia, fez nosso coração bater mais forte.

Eu me emocionei porque vi não apenas meu melhor amigo em cima de um palco, mas também a vida devolvendo a ele um pouco de tudo aquilo que o tempo não conseguiu apagar.

Foto de Raíssa França

Raíssa França

Cofundadora do Eufêmea, Jornalista formada pela UNIT Alagoas e pós-graduanda em Direitos Humanos, Gênero e Sexualidade. Em 2023, venceu o Troféu Mulher Imprensa na categoria Nordeste e o prêmio Sebrae Mulher de Negócios em Alagoas.
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