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É tudo culpa dela? Um olhar crítico sobre a série do momento “All Her Fault”

Há séries que não falam apenas da história que contam, mas do incômodo que produzem, e a série do momento, “All Her Fault”, opera exatamente desse lugar. Apesar de o suspense não ser sobre a maternidade em si, a história nos convoca a pensar sobre a realidade do maternar e seus desdobramentos na vida da mulher de uma maneira tal que embrulha o estômago. Desde o título, a narrativa aponta para algo que muitas mulheres conhecem bem: a culpa como destino quase automático.

Sem dar spoilers, a trama se constrói a partir de um acontecimento extremo, o sequestro de uma criança, e, ao longo de cada episódio, novos mistérios vão nos envolvendo e nos obrigando a transitar entre os personagens na busca do verdadeiro culpado pela situação. É aqui que reside o ponto alto da série porque, mesmo a despeito de tantas possibilidades plausíveis, é o modo como a responsabilidade vai sendo distribuída ou, melhor, concentrada que nos chama a atenção: invariavelmente, a culpa recai sobre as mães.

Do ponto de vista da saúde mental, isso não é novidade. A maternidade contemporânea vive sob um regime de vigilância constante. Cada escolha, cada decisão, cada descuido real ou imaginado é passível de julgamento. A série expõe, de forma crua, como o erro materno é lido não como falha humana, mas como falha moral. Não se trata apenas de errar; é pior: trata-se de errar sendo mãe.

O que “All Her Fault” faz com precisão é mostrar como a culpa se infiltra antes mesmo de qualquer veredito externo. A mãe não espera ser acusada, ela se acusa com questionamentos, angústias e ansiedades. Diante do imprevisível, a mente prefere se culpar a aceitar o acaso. A culpa oferece uma ilusão de poder retroativo: se eu causei, eu poderia ter impedido. É doloroso, mas parece ser menos assustador do que admitir que nem tudo está sob nosso domínio.

A série também tensiona outro ponto sensível: o quanto a maternidade atravessa a complexidade da mulher. A personagem não é lida como sujeito de múltiplos papéis, mas fica reduzida à função de mãe e, sendo mãe, tudo o que acontece passa a ser explicado por esse lugar. É uma lógica cruel e bastante conhecida. Sobre esse cenário, recomendo fortemente os livros da psicanalista Vera Iaconelli.

Definitivamente, assistir a “All Her Fault” não é confortável. E talvez não deva ser mesmo, justamente por expor a estrutura de uma sociedade que exige das mulheres/mães um nível de responsabilidade que beira o insuportável. No fundo, a pergunta que fica da série não é apenas “de quem foi a culpa?”, mas também: por que seguimos tão disponíveis para acreditar que, quando algo dá errado, a culpa prioritariamente é dela?

Talvez pensar sobre isso já seja um começo de deslocamento.

Foto de Raquel Pedrosa

Raquel Pedrosa

Psicóloga clínica formada pela UFAL (CRP 15/3938). Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza. Professora universitária no Centro Universitário de Maceió.
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