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Quem era você antes de ser mãe?

Existe uma pergunta que a maternidade costuma empurrar para o fundo: quem eu era antes disso tudo? Aqui não se trata do que foi feito de mim na infância ou dos desafios vivenciados na adolescência, mas sim daquela mulher imediatamente antes do “positivo”, com os seus desejos, silêncios, projetos e contradições.

Antes de ser mãe, muitas mulheres tinham tempo interno. Pensavam sem interrupção. Erravam sem sentir que estavam colocando alguém em risco. Podiam se cansar e parar. Depois da maternidade, o cansaço precisa ser administrado. O erro pesa mais. O descanso vem com culpa. E a mulher passa a existir quase sempre em uma função.

A maternidade não apaga essa mulher de vez. Inicialmente, ela a cobre e a ofusca. Primeiro com demandas urgentes, depois com responsabilidades permanentes, mais tarde com expectativas externas e internas.

Quando a gente se dá conta, não gostamos mais das roupas que vestíamos, os lugares que frequentávamos não tem a mesma graça, os medos não são mais os mesmos e o corpo, nem se fala… O estranhamento é tão real que lembrar do antes, exige esforço.

Essa transformação não é apenas prática, é também identitária. A maternidade reorganiza prioridades, valorese ritmos, além de estreitar o campo do desejo quando tudo gira em torno do cuidado com o outro. E é aí que algo delicado acontece: a mulher começa a sentir saudade de si mesma sem saber exatamente de quem sente falta.

Na clínica, essa pergunta aparece atravessada por ambivalências. Algumas das minhas pacientes respondem com nostalgia, outras com culpa e ainda tem aquelas que trazem como alívio.

Mesmo com respostas diferentes, o pano de fundo parece ser o mesmo: o mal-estar que esse questionamento traz, como se lembrar da mulher que existia antes fosse uma ameaça amor materno e ela fosse indigna da experiência do maternar.

Definitivamente, ser mãe nos transforma. É impossível passar pela maternidade sendo a mesma, mas isso não deveria significar deixar de ser alguém que você goste, mas sim, encontrar as partes de si que você não abre mão, para reconstruir o seu mosaico adaptando essas partes às suas demandas atuais.

É importante fazer o luto de quem você já foi, mas mais importante ainda é descobrir quem você quer e pode ser,mesmo diante de tantas mudanças. Não para voltar atrás, nem para competir com a maternidade, mas para ampliar novamente o espaço interno onde a mulher existe para além da função.

Nem sempre é um processo fácil e linear, mas é o único caminho para nos sentir inteiras novamente.

Lembre-se que se sentir bem na própria pele, vai te fazer também ser uma mãe melhor.

Foto de Raquel Pedrosa

Raquel Pedrosa

Psicóloga clínica formada pela UFAL (CRP 15/3938). Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza. Professora universitária no Centro Universitário de Maceió.
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