Foto: Reprodução/ ESPN Brasil
Por Raíssa França – @raissa.franca
Quando o jogador de futebol Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, afirma que “não adianta colocar uma mulher para apitar um jogo desse tamanho” e que “do tamanho dela acho que ela não tem capacidade”, não estamos diante de um desabafo isolado. Estamos diante da expressão de uma prática cotidiana e estrutural: homens seguem violentando física ou simbolicamente mulheres que ocupam espaços que ainda insistem em tratar como territórios exclusivamente seus.
O futebol brasileiro carrega uma história explícita de exclusão. Entre 1941 e 1979, mulheres foram oficialmente proibidas de praticar futebol no Brasil. Essa herança não desaparece por decreto; ela se reorganiza em discursos aparentemente circunstanciais, mas profundamente reveladores. Além disso, é importante reforçar que o futebol é visto como algo masculino e que não é espaço para mulheres.
Outro trecho da fala expõe com nitidez a lógica que sustenta esse tipo de pensamento: quando ele fala em “um jogo desse tamanho”, o que está implícito é a ideia de que existiriam espaços grandes demais para mulheres. Se há um “tamanho” inadequado para elas, então qual seria o aceitável? O menor? O secundário? O que não ameaça hierarquias?
Quando o jogador diz “com todo respeito às mulheres do mundo, eu sou casado, tenho mãe” (frase bem comum) ele tenta suavizar a violência simbólica por meio de vínculos afetivos. Como se ter mãe ou esposa funcionasse como um atestado moral, uma espécie de garantia de que ele “até gosta” de mulheres.
O jogo não foi perdido porque a árbitra é uma mulher. Foi perdido dentro de campo, nas escolhas táticas, nos erros cometidos, nas disputas vencidas e perdidas, como acontece em qualquer partida. Transferir a responsabilidade para o gênero de quem apita é mais do que injusto. Homens cometem erros absurdos todos os dias, e, ainda assim, ninguém diz que eles erraram por serem homens.
É exatamente isso que o patriarcado quer: deslocar o debate da competência para a identidade, transformar uma decisão técnica em uma “prova” de incapacidade feminina e, assim, reforçar a ideia de que certos lugares continuam não sendo para elas.
Estamos em 2026, ano de Copa do Mundo e ainda assim seguimos ouvindo que uma mulher não pode apitar um jogo desse tamanho…
Enquanto o esporte se vende como moderno, diverso e global, parte de seus protagonistas permanece presa a uma lógica ultrapassada, em que autoridade feminina é tratada como exceção ou erro. Para eles, as mulheres devem ficar nas arquibancadas? Limitadas ao papel de torcedoras, musas, coadjuvantes?
A pergunta é incômoda porque escancara o que muitos preferem não admitir: quando uma mulher ocupa o centro do campo, com poder de decisão, ela rompe uma fantasia histórica de exclusividade masculina.
As mulheres são grandes demais para o futebol machista.