Por Ana Paes, Psicóloga e Especialista em Neuropsicologia (CRP-15/1965)
Em tempos de redes sociais como palco de construção identitária, o fenômeno therian tem provocado curiosidade, inquietação e, não raramente, julgamentos apressados. Há quem trate como moda, quem trate como transtorno e quem romantize como expressão espiritual elevada. Nenhuma dessas respostas, isoladamente, dá conta da complexidade do tema.
A pergunta central não é se isso é real, porque a experiência subjetiva sempre é real para quem a vive. A pergunta que interessa à psicologia é outra: o que está sendo organizado, regulado ou simbolizado por meio dessa identidade?
Desenvolvimento cerebral e a arquitetura da identidade
A adolescência é um período de reorganização profunda do sistema nervoso central. O cérebro passa por poda sináptica, refinamento de circuitos e aumento da conectividade entre regiões frontais e sistemas emocionais. O córtex pré-frontal, responsável por planejamento, integração identitária e pensamento abstrato, ainda está em maturação. O sistema límbico, envolvido na emoção e na busca de pertencimento, encontra-se altamente responsivo. O circuito dopaminérgico, ligado à recompensa social e à validação, torna experiências de aceitação extremamente poderosas.
Nesse cenário, a identidade deixa de ser apenas um dado e passa a ser um projeto. O adolescente testa narrativas, símbolos e pertencimentos. A internet amplia exponencialmente o repertório disponível. Identidades como therian podem funcionar como estruturas provisórias de organização do self, especialmente em jovens que já se sentem deslocados, diferentes ou incompreendidos.
Simbolização, metáfora e cognição
O cérebro humano é essencialmente metafórico. Desde cedo, usamos símbolos para dar forma ao que ainda não conseguimos conceituar. A capacidade de simbolização envolve representação mental, imagética, teoria da mente, flexibilidade cognitiva e integração entre emoção e linguagem. Em alguns perfis, sobretudo aqueles com alta absorção imaginativa, a experiência simbólica pode adquirir tonalidade intensa, quase sensorial.
É crucial distinguir: fantasia lúdica consciente, na qual a pessoa sabe que está imaginando; metáfora identitária internalizada, em que a experiência é sentida como parte do self sem implicar perda de contato com a realidade; e crença delirante literal, quando há ruptura com a realidade consensual. A maioria dos relatos públicos de therians situa-se na segunda categoria.
Interocepção, corpo e experiência sensorial
Um ponto pouco explorado no debate público é o papel da interocepção — a capacidade de perceber sinais internos do corpo — e do processamento sensorial. Pessoas com maior sensibilidade sensorial ou com diferenças na percepção corporal podem ter experiências intensas de movimento, postura, ritmo, tensão muscular e necessidade de contato com a natureza. Nomear isso como “sentir-se lobo” pode ser uma forma intuitiva de traduzir estados corporais complexos. O cérebro integra constantemente percepção corporal e narrativa identitária. A identidade não é apenas cognitiva, ela é encarnada.
Outro aspecto relevante é a capacidade de absorção, um traço de personalidade associado à facilidade de imersão em estados internos. Absorção elevada não é, por si só, patológica. Está associada à criatividade, imaginação vívida e sensibilidade estética. No entanto, em contextos de estresse ou trauma, pode facilitar estados dissociativos leves.
É possível que, em alguns casos, a identidade therian funcione como estratégia de distanciamento emocional, forma simbólica de proteção ou organização narrativa de experiências traumáticas. A diferença entre recurso adaptativo e mecanismo defensivo rígido depende da flexibilidade da pessoa em transitar entre estados.
Neurodivergência e interseções possíveis (sem reducionismo)
É comum que o debate associe automaticamente o fenômeno a transtornos do espectro autista, mas essa associação simplista é problemática. Embora algumas pessoas neurodivergentes possam relatar experiências identitárias alternativas, não existe evidência científica robusta que estabeleça correlação causal entre autismo e identidade therian.
O que pode haver, em alguns casos, é sensibilidade sensorial elevada, dificuldades de pertencimento social e busca por comunidades que validem a diferença. Isso não significa que a identidade seja consequência direta de um transtorno. Reduzir fenômenos complexos a um único diagnóstico empobrece a análise.
Função psicológica: o critério central
A psicologia clínica trabalha com critérios objetivos: há sofrimento intenso? Há prejuízo acadêmico, social ou ocupacional? Há ruptura com a realidade consensual? A identidade é rígida ou flexível?
Se a experiência amplia o repertório emocional e social da pessoa, pode estar funcionando como recurso simbólico. Se restringe, isola e impede desenvolvimento, merece investigação cuidadosa. O diagnóstico não deve ser aplicado à identidade em si, mas à funcionalidade global do indivíduo.
Nenhuma identidade surge no vácuo. A internet cria ecossistemas simbólicos onde experiências individuais encontram linguagem compartilhada. Pertencimento ativa circuitos de recompensa poderosos. Ser validado por uma comunidade pode reduzir ansiedade, depressão e solidão. Por outro lado, grupos online também podem reforçar narrativas rígidas, dificultando integração identitária mais ampla. A questão não é demonizar comunidades, mas compreender como elas influenciam a consolidação do self.
Entre expressão e patologização
Historicamente, fenômenos identitários que fugiam à norma foram rapidamente classificados como patologia. A psicologia contemporânea precisa resistir a essa tentação. Nem toda experiência não convencional indica transtorno. Ao mesmo tempo, romantizar qualquer expressão identitária sem avaliar contexto também é negligente. O caminho ético é a escuta qualificada.
Em vez de perguntar se isso é normal, talvez devêssemos perguntar: o que essa identidade organiza? Que dor ela traduz? Que pertencimento ela oferece? Que partes do self ela protege? Identidades simbólicas podem ser pontes. Também podem ser muros. A diferença está na função.
O fenômeno therian desafia categorias rígidas porque toca em algo fundamental: a necessidade humana de coerência interna. Somos criaturas narrativas. Precisamos de histórias para nos compreender. Alguns encontram essas histórias na religião, outros na política, outros na arte, e alguns, na metáfora animal.
A psicologia não deve ser instrumento de ridicularização nem de validação acrítica. Deve ser instrumento de compreensão. E compreender exige mais do que reação moral: exige investigação, nuance e coragem intelectual. No fim das contas, o que está em jogo não é a pergunta se alguém pode ser um animal, mas como o cérebro humano constrói significado quando tenta sobreviver à própria complexidade.
Sobre a colunista
Ana Paes é psicóloga clínica e especialista em Neuropsicologia, com foco em psicoterapia para adolescentes, adultos e casais, bem como pessoas neurodivergentes, e em avaliações diagnósticas de alta precisão e saúde mental. Atua no mapeamento das funções cognitivas e emocionais, auxiliando pessoas a compreenderem a complexa relação entre o funcionamento cerebral e o comportamento. Com um olhar humanizado e técnico, dedica-se a transformar dados clínicos em caminhos de autoconhecimento, autonomia e bem-estar.
Acompanhe mais sobre o seu trabalho no Instagram: @anapaesneuropsi