Júlia,
Pela primeira vez em 38 anos eu me vejo paralisada de medo. Não que eu não o tivesse antes. Como mulher, eu sempre tive, mas depois de você, esse medo vem me engolindo a cada história e números que os jornais expõem.
Em pleno século XXI, você nasceu em um país em que muitas mulheres ainda morrem pelo simples fato de serem mulheres. Um país onde, nos últimos anos, os casos de feminicídio cresceram a ponto de alcançar os números mais altos da última década. Como não se assustar quando agora eu tenho você, minha menina?
Há algo duro em criar uma filha mulher neste mundo. Porque enquanto você explora tudo com curiosidade e inocência, eu também aprendo a imaginar como protegê-la de violências que nem sempre são visíveis. Algumas aparecem nas notícias. Outras estão nos gestos cotidianos, nas piadas que diminuem mulheres, nos olhares que tentam controlar o corpo feminino, nas expectativas que dizem como uma menina deve ser.
Você ainda é pequena demais para entender isso. E, sinceramente, eu espero que demore um pouco mais para ter essa compreensão para que possamos adiar ao máximo a ilusão que o mundo é mágico. Queria que seu mundo fosse mais simples, que sua vida não precisasse passar pela experiência de se explicar, de se defender, de provar que merece ocupar espaços que sempre foram seus por direito. Queria que você crescesse sem ter que aprender a ter medo de voltar sozinha para casa.
Mas, ao mesmo tempo, eu olho para você e penso na força que existe nas mulheres que vieram antes de nós. Você carrega uma história que começou muito antes de você nascer. Mulheres que falaram quando não era permitido falar. Que trabalharam quando não era permitido trabalhar. Que decidiram quando não era permitido decidir. Graças a elas, você já nasce em um lugar um pouco mais amplo do que aquele que foi oferecido a tantas outras.
Minha filha, se um dia o mundo tentar diminuir você, eu espero que se lembre que não há nada de errado em ser quem você é. A misoginia tem dessas coisas e tenta convencer às mulheres de que elas não são boas o suficiente. Nunca acredite nisso e preste atenção para não reproduzir discursos de ódio. Eles não nos levam a nenhum lugar construtivo.
Que você cresça sabendo que sua voz importa. Que seu corpo pertence a você. Que sua liberdade não precisa de permissão. E que, mesmo em um mundo que às vezes parece hostil, você nunca duvide de que existe uma rede invisível de outras mulheres torcendo por você, abrindo caminhos, sustentando umas às outras. Entre elas, estarei sempre eu.
Com amor,
sua mãe.