Colabore com o Eufemea
Advertisement

Além da violência: os impactos psicológicos do estupro coletivo na vida das mulheres

(Tempo de leitura: 6 minutos) – Foto: Freepik

O impacto de um estupro coletivo não se encerra com o fim da violência. Ele se prolonga, atravessa o corpo e a subjetividade, e altera profundamente a maneira como a vítima se percebe, constrói vínculos e se move no cotidiano. Muitas dessas marcas não são visíveis, o que dificulta não apenas a elaboração da experiência, mas também o reconhecimento da dor por parte de quem está ao redor.

No Brasil, a dimensão do problema é expressiva. Entre 2022 e 2025, foram registrados 22.800 casos de estupro coletivo, segundo o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), uma média superior a 15 ocorrências por dia. Desse total, 14,4 mil vítimas são crianças e adolescentes, enquanto 8,4 mil são mulheres adultas, conforme dados do Ministério da Saúde.

Uma experiência que ultrapassa o momento da violência

Foto: psicóloga Katarynne Martins

Para a psicóloga Katarynne Martins, episódios dessa natureza produzem um abalo que não pode ser imediatamente elaborado. “Trata-se de um acontecimento traumático que excede a capacidade de simbolização no momento em que ocorre”, afirma. A partir disso, a experiência permanece inscrita no psiquismo e reaparece por meio de diferentes manifestações.

Entre elas, estão ansiedade intensa, medo constante, episódios depressivos, vergonha e culpa. A profissional também destaca reações típicas de eventos traumáticos, como revivescências, estado de alerta contínuo e comportamentos de evitação.

Mais do que o fato em si, o que define a dimensão do impacto é a forma como ele se registra internamente. Katarynne observa que muitas mulheres passam a vivenciar uma ruptura na confiança nas outras pessoas e uma desconexão com o próprio corpo. “O corpo pode deixar de ser vivido como lugar de pertencimento e passar a ser sentido como território de invasão”, diz.

Nesse cenário, recursos como dissociação e silenciamento surgem como tentativas de lidar com aquilo que não pode ser suportado naquele momento.

A psicóloga e educadora em sexualidade Vanessa Albuquerque ressalta que os efeitos costumam ser intensos e persistentes. “A vítima pode apresentar impactos psicológicos bem intensos e o mais comum é o transtorno de estresse pós-traumático”, aponta. Ela também menciona a presença de ansiedade, tristeza profunda, medo recorrente, vergonha, sentimento de culpa e perda de confiança nos vínculos.

Quando a violência é coletiva, os efeitos se ampliam

A participação de múltiplos agressores aprofunda ainda mais os danos emocionais. Katarynne Martins explica que essa configuração amplia a sensação de aniquilamento subjetivo, intensificando o desamparo e a impotência. Além disso, há uma dimensão simbólica relevante, em que o corpo feminino é submetido a uma prática de dominação coletiva, marcada por objetificação e despersonalização.

Essa análise, segundo ela, precisa ser compreendida dentro de estruturas sociais mais amplas. Mulheres negras, periféricas e LGBTQIAPN+ enfrentam, com frequência, camadas adicionais de vulnerabilização, tanto pela maior exposição à violência quanto pelas barreiras no acesso a cuidado e justiça.

Vanessa Albuquerque acrescenta que a principal diferença em relação a outras formas de violência sexual está na intensidade do abalo. “A presença de mais agressores amplia a sensação de desamparo, de humilhação e de impossibilidade de reação”, afirma. Para ela, esse cenário torna o processo de recuperação mais complexo.

Foto: Vanessa Albuquerque

Sinais que passam despercebidos

As manifestações dessa experiência não seguem um padrão único e se transformam ao longo do tempo. Nos primeiros momentos, é comum a presença de choque, confusão, medo intenso e dificuldades para dormir, como observa Vanessa Albuquerque. O afastamento de pessoas e lugares também surge como uma tentativa de autoproteção.

Com o tempo, podem aparecer dificuldades de concentração, oscilações de humor e um distanciamento progressivo de atividades e relações afetivas. Em fases mais prolongadas, surgem impactos na intimidade, na confiança e na autoestima.

Katarynne Martins chama atenção para aspectos menos evidentes. “O sofrimento psíquico nem sempre se apresenta de forma evidente”, afirma. Muitas mulheres mantêm uma rotina aparentemente funcional, o que pode encobrir uma dor profunda. Entre os sinais mais discretos estão irritabilidade, retraimento, queda no rendimento e uma sensação constante de ameaça.

A psicóloga Ana Elena Paz destaca que alguns comportamentos ajudam a identificar esse quadro. O surgimento de medos que não existiam antes, como estar em locais cheios ou na presença de desconhecidos, pode indicar que algo não foi elaborado. “A negação também é um sinal de alerta. Por vezes a mulher diz que está bem apenas para evitar tocar no assunto”, explica.

Foto: Ana Elena

Ela ressalta ainda que, sem orientação, pessoas próximas podem, involuntariamente, intensificar esse quadro. Tentativas de minimizar o ocorrido ou de forçar a vítima a falar tendem a fragilizar ainda mais o emocional. Por isso, recomenda que familiares e amigos busquem orientação com profissionais de saúde mental para aprender a oferecer suporte de forma adequada.

“É mais difícil lidar com aquilo que você não vê”, afirma. Diante disso, ela orienta que, na ausência de formação técnica, o mais importante é escutar com atenção e acolher sem julgamentos. “Às vezes, apenas a presença no silêncio é muito mais aconchegante para a vítima do que qualquer conselho.”

Relações afetadas e sensação de insegurança

As consequências também se estendem às relações e à forma como a mulher se percebe. A psicóloga Thais Câmara define esse impacto como uma ruptura profunda. “Uma violência deste nível é um terremoto que abala todas as bases da vítima”, afirma.

A partir dessa experiência, é comum o surgimento de desconfiança nas relações, dificuldade de estabelecer vínculos e tendência ao isolamento. Ao mesmo tempo, a relação consigo mesma pode ser atravessada por culpa e cobranças internas, frequentemente ligadas à tentativa de encontrar explicações para o ocorrido.

Esse conjunto de fatores compromete a sensação de segurança e pode transformar o cotidiano em um espaço de vigilância constante.

Cuidado, apoio e reconstrução possível

Diante de um quadro tão complexo, o cuidado exige diferentes frentes. Thais explica que o acompanhamento psiquiátrico pode ser necessário, sobretudo no início, quando há impacto direto no sono. “O trauma da violência pode desencadear um desequilíbrio emocional intenso que afeta o sono, e, sem descanso, os sintomas de ansiedade e depressão entram em um ciclo vicioso”, afirma.

O acompanhamento psicológico também é fundamental para trabalhar sentimentos como vulnerabilidade, medo e culpa, além de contribuir para a retomada da autonomia. Grupos de apoio aparecem como aliados importantes nesse processo. “Uma das maiores armas do agressor é o isolamento”, pontua, ao destacar a importância da troca de experiências e da escuta empática.

A recuperação não acontece de forma rápida nem linear. “A vítima não vai ser capaz de apenas esquecer o que aconteceu”, afirma Thais.

Esse percurso se constrói aos poucos, em movimentos que podem parecer simples, mas carregam grande significado. Dormir melhor, sentir o gosto do café da manhã, sair de casa ou retomar atividades são passos importantes na retomada da vida. “É uma batalha que se ganha nas pequenas coisas, um dia de cada vez”, diz.

Foto de Raíssa França

Raíssa França

Cofundadora do Eufêmea, Jornalista formada pela UNIT Alagoas e pós-graduanda em Direitos Humanos, Gênero e Sexualidade. Em 2023, venceu o Troféu Mulher Imprensa na categoria Nordeste e o prêmio Sebrae Mulher de Negócios em Alagoas.
plugins premium WordPress