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E depois da violência, o que sobra?

Por Raquel Pedrosa

Depois da violência, o que sobra é um ruído. Um antes e depois que parecem não se encaixar mais, porque o mundo foi atravessado por algo que não se assimila com facilidade, nos invade sem consentimento e deixa as coisas fora de ordem.

A violência não termina quando o ato acaba. Ela continua nos detalhes cotidianos, na forma como passamos a perceber o que está ao nosso redor, na maneira como o corpo aprende a se defender mesmo quando não há uma ameaça visível. Continua na evitação de roupas, lugares e gestos que antes faziam parte de quem éramos. A violência persiste quando deixamos de nos reconhecer.

Há uma tendência na sociedade moderna de transformar toda dor em lição ou superação. As livrarias estão cheias de autobiografias e manuais de autoajuda para todo tipo de problema. De preferência, que tudo isso aconteça no menor tempo possível, afinal, somos constantemente medidos pela produtividade. Mas vamos combinar? Não há nada mais injusto do que obrigar alguém a “olhar pelo lado positivo” ou a juntar os pedaços da experiência até o próximo dia útil.

Nem toda experiência violenta precisa ser traduzida em algo positivo para fazer sentido. Às vezes, ela é apenas isso: uma marca. Algo que não fez sentido e, provavelmente, nunca fará, mas que precisaremos atravessar apesar disso. A questão não é negá-la, mas aceitá-la como parte da nossa história e nos implicarmos no que faremos a partir dela, respeitando o tempo de cada uma.

Depois da violência, o que nos resta é um processo de reconstrução individual, uma tentativa de não nos perdermos no que aconteceu. Um movimento que permite deslocar aquilo que foi normalizado por tanto tempo, mas que agora somos obrigadas a encarar. Sustentar esse lugar está longe de ser confortável. Ele nos retira de uma ilusão de controle e nos coloca diante da própria vulnerabilidade.

Isso exige tempo. Tempo de ver, tempo para compreender, tempo de concluir. Na psicanálise, chamamos isso de tempo lógico. Um tempo que não responde ao relógio nem ao calendário, tampouco à lógica produtivista. Um tempo que singulariza a dor e exige de nós um trabalho quase artesanal de escuta, nomeação e acolhimento.

Não há respostas simples para o que fica. Há, sim, a necessidade de paciência e coragem para encarar o vivido sem se violentar novamente no processo. Exige respeito pelas próprias dores. Não existe um jeito certo de sofrer. O caminho também não é linear. Há dias em que tudo retorna. Há dias em que parece distante. E há dias em que, quase sem perceber, a vida acontece.

Talvez seja isso que, de fato, nos resta. Não uma superação exemplar, nem uma versão fortalecida de si, mas a possibilidade de continuar existindo sem se reduzir à violência. E, sobretudo, de sustentar a certeza de que o que aconteceu não define quem você é.

Com carinho,
Raquel Pedrosa

Foto de Raquel Pedrosa

Raquel Pedrosa

Psicóloga clínica formada pela UFAL (CRP 15/3938). Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza. Professora universitária no Centro Universitário de Maceió.
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