Por Adelayde França
Foi numa sessão que ouvi novamente a expressão love bombing. Já tinha escutado antes, mas, dessa vez, parei e perguntei o que significava (me interessava saber principalmente o que significava para ela). A partir da resposta, lembrei de um trecho do livro de Geni Núñez, Descolonizando Afetos. Ela escreve: “o amor romântico nos ensina que, se alguém disse que ama, deverá amar para sempre… sentir diferente do que se pensava é considerado traição, engano, falta de responsabilidade.”
A paciente me diz que entende love bombing como quando alguém demonstra muito interesse no início, promete intensidade, parece não querer se separar, mas, logo depois, some, “enjoa” da pessoa. Ouvi e fiquei pensando sobre como, em nossas relações, existe uma expectativa de permanência: se você diz que ama, deve amar para sempre; se hoje deseja estar junto, deve desejar para sempre. Como se a palavra fosse uma camisa de força, como escreve Geni, que não pudesse ser modificada, mesmo quando nossos sentimentos mudam.
Isso me fez refletir sobre a intensidade. Já faz um tempo que noto que ser intenso é visto muito mais como um problema do que como algo genuíno. Arrisco dizer que não existe permissão para isso e, ao mesmo tempo, também não existe permissão para mudar de ideia. Se dizemos o quanto queremos alguém, é como se estivéssemos assinando um contrato eterno. Mas será que não é possível estar sendo honesto naquele momento, com aquilo que se sente, mesmo sem garantias sobre o amanhã?
Penso que o termo love bombing tenha nascido muito mais da dor de quem se sente rejeitado do que de uma descrição neutra. Porque dói acreditar em uma promessa de continuidade e, de repente, perceber que o outro não quis seguir. Só que a vida não caminha em linha reta, e o amor, o interesse, a paixão e o desejo também não.
Claro, existem casos em que há manipulação, em que o excesso de afeto é estratégia de conquista. Mas penso que também existe uma grande questão quando transformamos qualquer mudança de sentimento em acusação, como se não fosse permitido se desinteressar.
Enquanto continuarmos acreditando que palavras ditas num instante valem para sempre, viveremos presas a uma ilusão de eternidade. E esqueceremos que o amor, assim como a vida, é movimento, não destino.