No consultório, escuto relatos que não aparecem nos manuais de obstetrícia, mas que são onipresentes na clínica de psicologia com o público feminino: a sensação de que a vida entrou em modo de “espera” quando atravessamos aquele período entre a decisão de engravidar e os negativos ao longo dos meses.
Parece que, para a mulher que decidiu engravidar e não obteve o positivo de imediato, o tempo deixa de ser linear e passa a ser cíclico, ditado pelas fases do período fértil.
Observo que a jornada da chamada “tentante” é, antes de tudo, uma jornada de resiliência psicológica, muitas vezes vivida em um isolamento profundo.
Essa pressão para que o corpo funcione com a precisão de um relógio costuma ser marcada por sofrimento e um desgaste emocional gigantes. A incerteza do futuro passa a se impor de forma tirânica sobre as decisões do presente, carregada de muitos “e se”. A cultura tem tratado a fertilidade como algo puramente biológico e garantido. No entanto, quando os meses passam e o positivo não acontece, o impacto não é apenas físico; é identitário. A mulher começa a se questionar sobre si mesma, sua função e seus limites.
Nesse processo, algo precioso costuma se perder: a espontaneidade. O sexo, que antes era prazer e conexão, corre o risco de se tornar uma tarefa com hora marcada, uma obrigação técnica voltada para um fim. A vida social também sofre. É comum que a tentante comece a evitar chás de bebê, encontros com amigas que já são mães ou até reuniões familiares, para escapar de perguntas invasivas.
Clinicamente, sei que o “relaxar” é uma das orientações mais inúteis que alguém pode receber. Afinal, como relaxar quando se está investindo tempo, dinheiro, hormônios e, principalmente, esperança? O que essa mulher precisa não são conselhos simplistas, mas um espaço onde possa falar sobre o luto de cada menstruação que chega. Sim, cada ciclo que se encerra sem a gestação é um pequeno luto, pois representa a perda de uma possibilidade que já havia sido nomeada e sonhada.
É fundamental que você, que está nessa travessia, lembre-se de que sua identidade não se resume à sua capacidade reprodutiva. Minha provocação aqui, enquanto profissional que lida diariamente com essas dores, é: quem restou de você enquanto o bebê não chega?
É imperativo resgatar a mulher que existe para além do útero. O acompanhamento psicológico nesse estágio não deve focar em “ajudar a relaxar para engravidar”, mas sim em devolver a essa mulher o direito de habitar o próprio presente. Precisamos falar sobre o direito de estar triste quando o teste dá negativo, mas também sobre o direito de continuar vivendo, desejando e sendo potente, independentemente do teste de farmácia.
A maternidade, se e quando vier, deve encontrar uma mulher inteira, não alguém que se fragmentou na espera.
E, se a espera tem sido pesada demais, lembre-se de que o acompanhamento psicológico é um recurso estratégico de saúde. Cuidar da mente enquanto se prepara o corpo é a forma mais íntegra de acolher a vida que virá e, principalmente, de sustentar a mulher que você já é enquanto ela não chega.
Com Carinho,
Raquel