Tradicionalmente, o mês de maio é inundado por uma publicidade que romantiza a figura materna, focando no sacrifício e no amor incondicional. No entanto, desde 2022, o movimento Maio Furta-cor vem alterando essa narrativa, deslocando o foco das flores para a saúde mental de quem gesta e cria. A escolha da cor não é casual: o furta-cor é aquele que altera sua tonalidade de acordo com a luz, simbolizando a multiplicidade de estados emocionais que compõem a jornada da maternidade.
Como psicóloga, entendo que a conscientização é o primeiro passo para o rompimento de estigmas e que a saúde mental materna é um tema urgente. Dados da pesquisa “Nascer no Brasil”, coordenada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), revelam uma realidade alarmante: cerca de 26,3% das puérperas no país apresentam sintomas de depressão pós-parto (THEME FILHA et al., 2016). Isso significa que uma em cada quatro mulheres adoece emocionalmente após o nascimento do filho. Esse número é significativamente superior à média mundial estimada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que gira em torno de 13%.
A prevalência acentuada no cenário brasileiro não pode ser dissociada de fatores socioestruturais presentes no nosso país. A falta de redes de apoio sólidas, a precariedade dos vínculos empregatícios e a sobrecarga do trabalho doméstico são determinantes sociais que impactam diretamente as mulheres. Na clínica, observamos que o sofrimento materno raramente é uma questão puramente biológica; ele é, muitas vezes, uma resposta a um ambiente exaustivo e solitário. A mulher é cobrada a exercer uma “maternidade ideal” enquanto lida com a privação de sono, a alteração de identidade e as pressões estética e profissional.
A campanha Maio Furta-cor busca, portanto, despatologizar sentimentos comuns, como a ambivalência e o cansaço, ao mesmo tempo em que alerta para a necessidade de intervenção profissional quando a tristeza se torna paralisante. Do ponto de vista da psicologia, ressaltamos a importância do pré-natal psicológico como uma ferramenta de prevenção. Identificar precocemente fatores de risco durante a gestação é fundamental para evitar o agravamento de quadros de ansiedade e depressão no puerpério, garantindo não apenas o bem-estar da mulher, mas também o desenvolvimento saudável do vínculo com o bebê.
Além disso, é fundamental que as políticas públicas e o setor privado reconheçam a saúde mental materna como um pilar da saúde coletiva. Precisamos de espaços de acolhimento, de redes de apoio que funcionem na prática e de uma escuta clínica que valide a dor dessas mulheres, sem reduzi-las apenas ao papel de cuidadoras.
Que este maio nos convoque a olhar para as cores reais da maternidade, permitindo que as mulheres vivam sua potência sem sacrificar sua sanidade.
Com carinho,
Raquel
Referências Bibliográficas
THEME FILHA, Mariza Miranda et al. Prevalência de depressão pós-parto e fatores associados no Brasil. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 50, n. 7, p. 1-10, abr. 2016. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rsp/a/P8V6Rk4HwS9Y8h9j8k7L6mQ/. Acesso em: 29 abr. 2026.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Maternal mental health. Geneva: WHO, 2022. Disponível em: https://www.who.int/teams/mental-health-and-substance-use/maternal-mental-health. Acesso em: 29 abr. 2026.