Certa vez, li em uma rede social que a única pessoa capaz de dar descanso para uma mãe seria a sua própria mãe. Uma frase curta, simples e direta, mas que em mim ecoou com uma força quase física, acompanhada da pergunta: o que seria de mim e da minha maternidade sem a minha mãe?
Voltei aos primeiros dias da minha filha, à introdução alimentar, às primeiras viroses. Ela sempre estava lá, me permitindo ser filha dela antes de ser a mãe de alguém.
Neste Dia das Mães, enquanto as vitrines se esforçam para vender amor incondicional e completude, meu olhar se volta para a retaguarda. Especificamente para o pilar que sustenta a saúde mental materna no hiato entre a responsabilidade de cuidar de uma criança e a necessidade de ser cuidada: a mãe da mãe.
Diante do nascimento de um bebê, todos os olhares se voltam para ele. Poucos observam as fragilidades da nova mãe. Às vezes, nem a própria mulher se permite parar e ser frágil em um momento tão caótico, porque vivemos em uma cultura que espera a autossuficiência do cuidado materno.
Nesse cenário, a “mãe da mãe” opera em uma zona de transferência emocional. Ela cuida do bebê para que a filha descanse, mas também cuida da filha para que esta possa continuar sendo mãe. É um ciclo de nutrição que atravessa gerações e que, quando saudável, funciona como um importante fator de proteção contra a depressão perinatal e o esgotamento.
É verdade que essa relação nem sempre é isenta de ruídos. O encontro entre duas gerações de mães também é um encontro de épocas, métodos e dores diferentes.
Além disso, é nesse momento que muitas situações da relação construída ao longo dos anos costumam ser atualizadas. E é justamente aí que se abre a possibilidade de ressignificar partes da nossa própria história e até transformar as perspectivas criadas a partir do lugar que ocupávamos como filhas.
Na tessitura da vida real, o apoio transgeracional não é um conceito abstrato de um livro de psicologia. É o colo que nos sustenta quando os braços já não aguentam mais o peso do cansaço.
Celebrar o Dia das Mães é, para mim, um ato de reverência à continuidade. É reconhecer que meu exercício como psicóloga, professora e mãe é alimentado por essa fonte ancestral de afeto e presença.
Ser mãe sem ter a nossa mãe por perto, seja por distância, luto ou ausência emocional, é uma das tarefas mais hercúleas que uma mulher pode enfrentar.
Por isso, hoje, meu texto não é apenas uma homenagem, mas também um reconhecimento técnico e afetivo: a saúde mental das mães depende, sim, em grande medida, da generosidade das mães que as sustentam.
Dedico a coluna de hoje a todas as mães que aceitam o papel de alicerce para que suas filhas possam voar na maternidade. Para vocês, o meu mais profundo e sincero abraço. Sem vocês, a conta da nossa sanidade simplesmente não fecharia.
De maneira especial, hoje eu celebro a minha mãe, Fátima. É ela quem percebe o meu cansaço antes mesmo de eu nomeá-lo, quem traz o café quente quando o mundo parece barulhento demais e quem, com um olhar, me devolve a certeza de que eu sou capaz.
É por causa dela que hoje eu posso ser uma mãe melhor para minha filha.
Obrigada, mãe!
Com carinho,
Raquel