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O pós-diagnóstico de Autismo na saúde mental materna

Depois do diagnóstico de autismo do filho, uma mãe jamais será a mesma. Presencio um misto de sentimentos que transitam entre o alívio pela resposta tão procurada e o medo do futuro desconhecido. Como psicóloga, reforço sempre que o diagnóstico não é um ponto final e nem deve ser encarado com o peso de uma sentença limitante, mas sim como uma bússola que nos ajuda a pensar sobre os caminhos que podemos traçar para a criança e seus cuidadores. Porque é justamente o que acontece nesse pós-diagnóstico que vai definir a qualidade de vida de todos, inclusive da mãe que, geralmente, é a principal cuidadora.

A literatura sobre o tema aponta que mães de crianças com transtornos do desenvolvimento apresentam níveis de estresse e sintomas depressivos significativamente mais elevados do que a população geral. Isso ocorre porque o sistema de cuidado é, historicamente, desenhado para ser solitário e feminino. A mulher passa a viver em um estado de alerta constante, em vigilância sobre cada comportamento, cada progresso e cada retrocesso do filho.

Esse quadro de “estresse crônico” é o terreno fértil para o burnout materno, onde a exaustão emocional drena a capacidade de empatia e de autorregulação. Se não houver um olhar atento para essa mulher, o diagnóstico do filho vira o diagnóstico do isolamento da mãe.

Observa-se que o diagnóstico de autismo é, em última instância, uma intervenção profunda na saúde mental materna, um evento crítico que exige um rearranjo psíquico diante do labirinto burocrático e emocional que se instala.

De um lado, a ciência nos pressiona com a urgência da intervenção precoce. Do outro, há uma mãe tentando entender todos os porquês. Para além da jornada exaustiva de consultas semanais com profissionais diversos, existe um luto simbólico do filho que a imaginação desenhou e os desafios encontrados na realidade com a criança atípica.

Vale ressaltar que esse luto não significa rejeição, mas sim uma quebra de projeções e expectativas que sustentam, invariavelmente, todas as maternidades. Negar esse sentimento, sob o pretexto de uma “força inabalável”, é o primeiro passo para o adoecimento.

Dessa forma, um passo fundamental nesse processo é se permitir sentir a estranheza desse novo mundo para, só então, começar a (re)construí-lo sob outros moldes. Em outras palavras, para que a mãe consiga se conectar com a criança real e suas necessidades específicas, ela precisa de espaço para processar as perdas que vieram com o diagnóstico. Esse processo não é linear e exige um acolhimento que ultrapassa a orientação técnica.

Esse caminho exige paciência e uma mudança de perspectiva. É preciso sair da lógica da “cura” e entrar na busca pela autonomia e funcionalidade. A jornada pode ser longa, mas não precisa ser solitária. Nesse sentido, o acolhimento especializado para a família é tão vital quanto a terapia para a criança, uma vez que a eficácia das intervenções com ela está diretamente relacionada ao bem-estar emocional de seus cuidadores.

Por isso, o acompanhamento psicoterapêutico individual para essa mulher não deve ser visto como um luxo, mas como parte integrante do protocolo de tratamento da criança.

Dedico esse texto para todas as mães atípicas e, especialmente, para as super mães que tanto admiro: Kelma e Letícia.

Com carinho,
Raquel

Referências Bibliográficas

MAPA, A. L. R.; et al. O impacto do diagnóstico de autismo para os pais: uma revisão de literatura. Revista Psicologia e Saúde, v. 12, n. 3, p. 81-94, 2020.

ZAMIGNANI, D. R.; et al. A saúde mental de cuidadores de pessoas com Transtorno do Espectro Autista. São Paulo: Paradigma, 2021.

Foto de Raquel Pedrosa

Raquel Pedrosa

Psicóloga clínica formada pela UFAL (CRP 15/3938). Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza. Professora universitária no Centro Universitário de Maceió.
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