Essa semana, recebi uma mensagem de uma amiga querida dizendo que estava trancada no banheiro, chorando pelo caos da semana sem a ajuda da babá. Após acolhê-la, me peguei pensando em quantas vezes essa cena se repete para tantas outras mulheres e, diferente dessa amiga, quantas são aquelas que não têm a quem endereçar seu cansaço e o que fazer com isso. Um fato é que a exaustão materna é real, precisa ser acolhida, mas, definitivamente, isso não faz dela uma mãe menos boa.
Na era do espetáculo digital, fomos sutilmente convencidos de que a competência materna é medida pelo nível de harmonia impresso nas fotos das redes sociais. Casas organizadas, crianças tranquilas e uma mulher sorridente tornaram-se os critérios estéticos de uma “boa mãe”. No entanto, quem escuta as vozes reais que ecoam nos bastidores dos lares sabe que a verdade é muito mais complexa e que uma boa maternidade também é feita de dias ruins. E está tudo bem que seja assim.
O principal adoecimento materno não nasce necessariamente da exaustão física em si, mas da distância, muitas vezes intransponível, entre a mãe real, ou seja, aquela que ela consegue ser em meio às exigências cotidianas, e a mãe ideal, aquela que disseram que ela deveria ser desde quando ainda era uma menina cuidando de suas bonecas. A ideia de que o esgotamento ou a falta de paciência seriam incompatíveis com o amor materno precisa ser revista, pois é necessário romper com esse absolutismo emocional, uma vez que essas emoções podem coexistir. O amor materno não é um anestésico contra a fadiga.
Sentir-se irritada ou desejar um momento de solidão não anula a qualidade do cuidado; pelo contrário, humaniza-o. Uma infância saudável não exige uma presença impecável, mas sim uma presença real, capaz de reparar erros e demonstrar sentimentos legítimos. Quando um filho percebe que a mãe também fica triste e frustrada, abre-se a possibilidade de apresentarmos a ele a alteridade e a descoberta de que o outro existe para além das suas próprias vontades.
O conceito de “mãe suficientemente boa”, amplamente debatido nos estudos sobre desenvolvimento infantil, nos ensina justamente isso: a imperfeição da mãe permite que a criança aprenda a lidar com as frustrações do mundo real. Por isso, uma mãe perfeita seria, paradoxalmente, um desserviço ao crescimento emocional de um filho.
Os dias ruins são partes integrantes da jornada, não evidências de fracasso. Validar o próprio cansaço é o primeiro passo para a autopreservação. Quando uma mulher aceita que o seu limite foi atingido, ela se abre para a possibilidade de pedir ajuda, renegociar funções e abandonar o mito da autossuficiência que tanto a adoece.
Que possamos legitimar o direito ao cansaço sem que isso seja lido como falta de afeto. Olhar para o espelho no fim de um dia difícil, reconhecer os próprios limites e, ainda assim, acolher a si mesma com generosidade é, talvez, um dos maiores atos de amor que uma mãe pode praticar por seu filho e por sua própria história.
Com carinho,
Raquel