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Dois livros que me fizeram sentir menos sozinha na maternidade

Foto: Reprodução/internet

Acredito fortemente que bons livros sempre nos ensinam algo novo e nos ajudam a desenvolver senso crítico. Despertam emoções e criam portais para mundos distintos. Mas, recentemente, descobri que eles também têm o poder de gerar a mesma sensação de colo e abraço. Foi o que senti quando li “Mãe perfeita não tá mais se usando”, de Roberta Ferec, e “60 dias de neblina”, de Rafaela Carvalho.

Por isso, hoje peço licença para fazer uma recomendação de duas leituras incríveis, que me acompanharam no primeiro ano da minha filha e me fizeram sentir menos sozinha nesse universo chamado maternidade. Embora diferentes na escrita e no tom, os dois livros parecem conversar sobre um mesmo tema: o encontro entre a maternidade real e a maternidade que imaginamos viver.

Existe uma versão idealizada da maternidade que nos acompanha desde muito cedo. Nela, as mães sabem exatamente o que fazer. São pacientes, equilibradas e amorosas o tempo todo. Conseguem dar conta das demandas dos filhos sem se perderem de si mesmas. É uma imagem sedutora, mas profundamente injusta.

Em Mãe perfeita não tá mais se usando, Ferec escreve sobre o cotidiano materno com humor, afeto e honestidade. Ri um bocado ao longo das crônicas. A autora desmonta a fantasia da perfeição e nos lembra que a maternidade acontece muito mais nos pequenos desencontros da rotina do que nos momentos idealizados que costumam ocupar as redes sociais. Há algo de libertador quando uma mãe admite que está cansada, confusa ou simplesmente tentando fazer o melhor que pode.

Já em 60 dias de neblina, Carvalho mergulha nos primeiros tempos da maternidade, período que costuma ser cercado de romantização, mas que muitas mulheres atravessam com sentimentos contraditórios, exaustão e estranhamento. A autora consegue nomear experiências que frequentemente permanecem sem palavras: a intensidade do cuidado, a perda temporária de referências e a sensação de que a vida conhecida ficou suspensa por algum tempo.

O que mais me marcou nas duas leituras foi perceber que nenhuma delas tenta transformar a maternidade em uma experiência perfeita. Ao contrário, ambas reconhecem que existe amor, mas também existe cansaço. Existe encantamento, mas também existe ambivalência. Existe felicidade, mas há dias em que sobreviver já parece um grande feito.

Em meio a tantos manuais sobre como criar filhos, como se houvesse, de fato, uma receita universal, acredito que a beleza desses livros está justamente na desconstrução da romantização do maternar. Como psicóloga, ressalto a importância de termos contato com narrativas mais honestas, que não exigem das mulheres uma maternidade plena nem uma dedicação sem limites.

Recomendo a leitura para todas aquelas que estão embarcando na primeira gestação e ainda não sabem exatamente como será. Para aquelas que estão na segunda ou terceira gestação e que estão se questionando como vão dar conta de encontrar espaço para todos.

E para aquelas que estão na fila da adoção, em busca de compreender como exercer esse papel.

Lembrem-se de que é no abandono da perfeição que nos aproximamos do que é verdadeiramente humano e, quem sabe, mais verdadeiro.

Com carinho,

Raquel Pedrosa

Referências

FEREC, Roberta. Mãe perfeita não tá mais se usando: e outras crônicas para você rir, chorar e abraçar o caos enquanto cria ser humano. São Paulo: Matrescência, 2020.

CARVALHO, Rafaela. 60 dias de neblina. São Paulo: Matrescência, 2017.

Foto de Raquel Pedrosa

Raquel Pedrosa

Psicóloga clínica formada pela UFAL (CRP 15/3938). Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza. Professora universitária no Centro Universitário de Maceió.
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