Há séculos, a figura materna é associada ao afeto, ao aconchego e à segurança, como se a maternidade estivesse acima do bem e do mal e, por si só, fosse uma garantia de proteção aos filhos. Esquecemos que, antes de tudo, aquela mãe é uma mulher que carrega uma história, com marcas e crenças que podem repercutir diretamente na relação com qualquer pessoa, inclusive com os próprios filhos.
Nem toda relação entre mãe e filha é feita de sorrisos espontâneos, e nem toda memória materna é confortável. Se, por um lado, é possível observar filhas que não encontram na mãe um lugar de acolhimento, por outro, existem mães que não conseguem oferecer aquilo que gostariam de ter oferecido.
Há relações construídas em meio a desencontros, com lacunas que atravessam gerações. Não necessariamente por falta de amor, mas pelas limitações que aquela mulher encontrou na própria criação, na relação com sua mãe. Algumas delas conseguem romper ciclos de violência. Outras apenas os reproduzem da única maneira que conhecem. São dores não resolvidas e histórias tão difíceis que, às vezes, elas apenas tentam sobreviver às próprias feridas e, nesse processo, encontram pouca abertura emocional para construir encontros mais saudáveis com os filhos.
Há mães que confundem educação rígida com amor. Mulheres que acreditam estar preparando suas filhas para o mundo, mas que acabam ensinando, ainda que involuntariamente, que amor e aprovação precisam ser conquistados.
Há filhas que cresceram tentando merecer amor. Tornaram-se especialistas em agradar, antecipar necessidades, evitar conflitos e corresponder às expectativas. Aprenderam a buscar reconhecimento em cada conquista, como se a aprovação finalmente pudesse lhes trazer a relação idealizada.
Mas a verdade é que o afeto condicionado não consola. Ele cansa porque, em vez de produzir segurança, produz vigilância. Além disso, é importante lembrar que viver tentando merecer esse amor é diferente de se sentir amada. E, mesmo quando aquela mãe age movida pelas melhores intenções, vínculos formados pelo medo podem deixar marcas.
Talvez por isso tantas mulheres cheguem à vida adulta carregando sentimentos tão contraditórios em relação às próprias mães. Reconhecer a complexidade desse vínculo, o lado humano e, por que não dizer, frágil dessa mulher permite que deixemos de nos prender à perfeição e consigamos olhar com mais honestidade para as histórias que nos constituem, compreendendo de forma crítica aquilo que carregamos delas.
Lembre-se de que, quando você se apropria da sua história e assume responsabilidade pelo que lhe pertence, torna-se mais fácil estabelecer limites e tomar decisões que impactarão positivamente sua saúde mental e seu futuro.
Com carinho,
Raquel Pedrosa