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Eu era uma mãe perfeita, até o dia que eu tive uma filha

Antes da minha filha nascer, eu tinha muitas certezas. Sabia o que faria, o que eu jamais faria. Pensava na mãe que eu seria, nos valores que ensinaria, na paciência que teria e até na forma como lidaria com as birras, as telas, a alimentação, o sono. Inclua nesta lista todas as teorias que eu aprendi nesses 15 anos como psicóloga. 

E quer saber? Nenhuma dessas certezas se confirmou. 

Existe uma espécie de maternidade imaginária que todas nós construímos muito antes de termos um filho. Ela nasce das histórias que ouvimos, das mães que admiramos, dos livros que lemos e, mais recentemente, das vidas perfeitamente editadas que acompanhamos nas redes sociais. Inclusive, nessa maternidade ensinada nas redes, tudo parece fazer sentido, de maneira muito simples.

Quando um filho nasce, a realidade que cada mãe vive não cabe nem na mais perfeita teoria. O que funciona para uma, não funciona para outra e está tudo bem. A vida vai se fazendo nessas diferenças mesmo. O importante é que, no fim das contas, mãe e filho estejam bem.

Do lado de cá, no alto de todas as teorias psicológicas possíveis, descobri que existem dias em que a paciência acaba antes da manhã terminar. Dias em que o cansaço fala mais alto que as boas intenções. Dias em que eu gostaria de acertar mais do que consigo.Descobri, sobretudo, que criar uma filha não é apenas educar alguém. É encontrar, diariamente, partes de mim que eu ainda nem conhecia.

Aqui, e somente aqui, me permitam trazer um querido da psicanálise para afagar o coração carregado das mães. O psicanalista e pediatra Donald Winnicott teorizava que não existe mãe perfeita. O que precisa existir é uma mãe suficientemente boa. Em outras palavras, uma mãe que falha, repara, aprende e continua presente.

Acredito que abandonar essa fantasia de perfeição tenha sido exatamente o meu maior aprendizado na experiência da maternidade. É impossível sustentar essa ideia quando passamos madrugadas sem dormir, amargando uma solidão que parece não ter fim, ou quando cansamos diante de um dia inteiro entre brincadeiras, birras e demandas por atenção constante.

A maternidade real é muito menos elegante do que eu supunha. Ela bagunça horários, certezas, prioridades e, principalmente, a imagem que fazemos de nós mesmas. Por outro lado, foi com ela também que eu aprendi algo muito mais precioso. A minha filha nunca precisou de uma mãe perfeita. Ela precisa de uma mãe disponível a aprender. Capaz de reconhecer os próprios erros. Disposta a pedir desculpas quando fosse necessário. Corajosa o suficiente para abandonar a necessidade de parecer impecável.

Minha filha me ensinou que a maternidade não vem com manual e que, melhor que as minhas teorias, eu precisava me escutar e escutar a ela. Com uma dose de humildade, eu entendi que ser psicóloga não me faz especialista em ser mãe dela. Por fim, entendi que o amor acontece com os erros e acertos.

Obrigada Júlia por me tirar o peso das minhas certezas e me tornar, aos poucos, uma mãe possível. 

Com carinho,

Raquel Pedrosa

Foto de Raquel Pedrosa

Raquel Pedrosa

Psicóloga clínica formada pela UFAL (CRP 15/3938). Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza. Professora universitária no Centro Universitário de Maceió.
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