Foto: Imyra Perrelli @imyraperrelli
Se eu pudesse me sentar ao seu lado agora, eu não começaria perguntando como está o bebê. Eu perguntaria como está você.
Curiosamente, depois que um filho nasce, a mulher costuma desaparecer entre as conversas. Todos querem saber se o bebê dorme, se mama, se ganhou peso. Enquanto isso, existe uma mulher tentando entender quem ela se tornou.
Você acabou de viver uma transformação que nenhuma palavra consegue traduzir completamente. Seu corpo mudou. Sua rotina deixou de existir. O tempo parece não funcionar da mesma maneira. Você ama alguém de uma forma que nunca imaginou ser possível e, ao mesmo tempo, talvez sinta medo, culpa, saudade da vida de antes, cansaço ou solidão. Ou tudo isso ao mesmo tempo.
Não acredite quando disserem que você deveria estar apenas feliz e grata. A maternidade não anula a sua humanidade.
Existe uma expectativa de que, ao segurar um filho nos braços, uma mulher encontre instantaneamente seu lugar no mundo. Como se o instinto resolvesse todas as dúvidas e como se o amor eliminasse o medo.
Entenda que o puerpério também é um tempo de luto, e está tudo bem reconhecer isso. Admitir esses lutos não diminui o amor pelo seu filho. Apenas compreende que toda grande chegada também produz transformações jamais vivenciadas com tanta intensidade e, por isso mesmo, você se assuste com pensamentos que nunca teve, chore sem entender exatamente por quê ou ainda se sinta insuficiente mesmo fazendo tudo o que consegue.
Quando a angústia aparecer, lembre-se de respirar fundo. Uma, duas, quantas vezes você precisar. Ganhe distância, tente se observar por outras perspectivas, mesmo que por breves minutos.
Você não precisa descobrir a maternidade inteira nesta semana, nem neste mês e até mesmo neste primeiro ano. Para falar a verdade, nem sei se esse dia chegará, porque, a cada fase, novos desafios vão acontecendo e novas descobertas vão surgindo.
O importante é entender que seu filho não precisa de uma mãe que saiba todas as respostas. Ele precisa de uma mãe que, aos poucos, possa construir um lugar seguro para os dois.
Por isso, aceite ajuda quando ela vier. Durma quando for possível. Diminua as exigências consigo mesma. Ignore, sempre que puder, os conselhos que fazem você se sentir menor.
Se hoje você sente que ainda não se reconhece no espelho, saiba que isso é temporário. Algumas versões de nós precisam de tempo para nascer.
Talvez a mulher que você procura ainda esteja sendo construída, justamente entre uma mamada, uma noite mal dormida e a solidão no meio da madrugada.
Tenha paciência com ela. Ela também acabou de nascer.
E, por fim, permita-se pedir ajuda se perceber que o sofrimento está maior do que você consegue sustentar sozinha. O puerpério não é uma prova de resistência, é uma travessia. E, quando há ajuda, ela tende a se tornar mais leve.
Com carinho,
Raquel Pedrosa