A transição capilar nunca é sobre o cabelo. É sobre tudo o que ele carrega. Sobre o que aprendemos a esconder, a alisar, a controlar para caber em expectativas que nunca foram nossas.
Tenho 34 anos e só em 2023 vivi o meu processo de transição capilar. Desde então, uma pergunta nunca saiu da minha cabeça: era um cabelo novo ou apenas o cabelo que esteve escondido durante tantos anos?
A partir dali, muita coisa mudou. Fui convidada por grandes marcas para campanhas publicitárias, participei da exposição É Coisa de Preto e passei a ser reconhecida socialmente como uma mulher negra, algo que, até então, eu mesma ainda não havia elaborado por completo. A transição mudou a forma como eu me via.
O que durante a infância e a adolescência foi motivo de piadas, constrangimentos e tentativas de apagamento tornou-se, finalmente, a minha maior força. Pela primeira vez, eu olhava para o espelho sem sentir que precisava corrigir quem eu era.
Nos últimos meses, no entanto, uma ideia passou a me visitar: e se eu voltasse a alisar o cabelo? A pergunta me incomodou tanto que acabou chegando à terapia. Sou daquelas pessoas que sonham todas as noites. E, curiosamente, os meus sonhos passaram a repetir uma mesma cena: eu alisava o cabelo e gostava do resultado. Nos sonhos, eu me achava mais bonita, leve e feliz.
O sonho desta madrugada me assustou. Não porque eu estivesse de cabelo liso, mas porque eu estava confortável nele. Era como se uma parte de mim dissesse que aquele retorno seria um alívio.
Foi aí que percebi que a questão nunca foi o cabelo. O sonho não falava sobre fios. Falava sobre pertencimento, aceitação e sobre o desejo, muitas vezes inconsciente, de ocupar um lugar onde eu não precisasse explicar quem sou.
Conversando com uma amiga, percebi que a transição capilar nunca foi sobre cabelo. É sobre o que existe por trás dele. Existe uma questão interna — talvez até traumática — em desejar voltar a ser a Raíssa de antes. Ou, quem sabe, a mulher que parecia caber nos padrões.
Mas o que significa, afinal, caber nesses padrões? E, mais importante: quem define quais corpos, rostos e cabelos merecem ser aceitos?
Se, por um lado, encontrei liberdade quando assumi meus cachos, por outro encontrei olhares atravessados, comentários que antes não existiam e experiências de racismo que passaram a fazer parte da minha rotina. O mesmo cabelo que me libertou também me tornou mais vulnerável aos preconceitos que estruturam a sociedade.
Talvez seja por isso que, às vezes, exista a tentação de voltar. Não porque eu não ame quem sou hoje, mas porque ser aceita sempre pareceu mais fácil do que ser autêntica. Tive a sensação de que voltar a alisar o cabelo me levaria para um lugar de aceitação. Um lugar onde eu seria mais facilmente escolhida, onde não precisaria provar o tempo todo que sou competente, bonita ou suficiente. Como se o simples fato de me aproximar de um padrão tornasse minha existência menos questionável.
Escrever isso também é um convite para olhar com mais honestidade para as contradições que carregamos. A transição capilar não nos torna imunes ao racismo, nem apaga décadas ouvindo que existe um jeito “certo” de ser bonita, elegante ou profissional. Descobri que a liberdade não elimina as marcas do passado. Ela apenas nos dá a chance de reconhecê-las sem fingir que nunca existiram.
Nunca será apenas sobre o cabelo que carregamos. A Raíssa do cabelo alisado nunca foi apenas uma mulher de cabelo liso. Ela era uma versão de mim que aprendeu muito cedo que, para ser aceita, precisava se aproximar de um ideal que nunca foi construído para corpos como o meu. Talvez seja essa Raíssa que, vez ou outra, ainda apareça nos meus sonhos.
Hoje, entendo que a transição capilar não apagou essa mulher. Ela continua existindo em algum lugar da minha memória, junto das inseguranças, dos medos e das estratégias que desenvolvi para sobreviver. O desafio não é fingir que ela nunca existiu, mas acolhê-la sem permitir que ela decida quem eu sou agora.