Há algum tempo venho me questionando sobre os rostos de surpresa das pessoas quando afirmo que, desde que minha filha nasceu, meu marido e eu alternamos as noites de cuidado com ela. Fizemos esse acordo quando voltei ao trabalho após a licença-maternidade e assim seguimos nos últimos dois anos. As expressões de espanto e perguntas como “ele não reclama?” ou “como você conseguiu?” me colocam em um lugar de estranhamento. Afinal, essa não deveria ser a regra?
A resposta para a minha questão é simples e racional, mas, culturalmente, o cuidado ainda está associado, essencialmente, à figura feminina. E, quando nós, mulheres, menos esperamos, já estamos às voltas com a culpa por trabalhar mais ou por desejar um tempo só nosso, enquanto os pais seguem suas atividades sem maiores questionamentos sobre se são bons pais.
O que está em jogo aqui não é apenas a divisão de tarefas, mas a régua com que avaliamos homens e mulheres. Ainda esperamos que a maternidade reorganize completamente a identidade feminina. Da mulher, esperamos disponibilidade, renúncia, presença constante, sensibilidade e a capacidade de antecipar as necessidades da criança e da família. Do pai, muitas vezes, esperamos apenas a participação.
Parece uma diferença sutil, mas ela muda tudo. Participar pressupõe que existe alguém conduzindo o processo. Cuidar pressupõe corresponsabilidade. Quando um homem “ajuda” em casa, a própria linguagem revela o problema. Ninguém ajuda naquilo que também é sua responsabilidade. Quem ajuda é visita. Quem cuida assume compromisso.
É assim que a sobrecarga feminina deixa de parecer uma injustiça e passa a ser interpretada como consequência natural da maternidade. Mas, definitivamente, ela não é natural ou, pelo menos, não deveria ser. Ela é produzida todos os dias, nas pequenas expectativas que repetimos sem perceber: na escola que liga primeiro para a mãe; na academia, quando nos perguntam com quem deixamos nossos filhos; e até na empresa que prefere não contratar mães, supondo que elas faltarão mais ao trabalho.
Vale ressaltar que essa lógica também produz perdas para os homens. Quando a paternidade é tratada como um papel secundário, muitos acabam privados da oportunidade de construir um vínculo cotidiano com os filhos. O cuidado não se resume às grandes decisões ou aos momentos de lazer; ele é tecido na rotina diária. É nessa convivência próxima que a parentalidade se fortalece. Quando tudo isso é delegado quase exclusivamente à mãe, os pais também deixam de ocupar um lugar que lhes pertence por direito e por responsabilidade.
Acredito que a maior armadilha desse modelo seja fazer com que a desigualdade pareça uma escolha individual. Como se algumas mulheres simplesmente fossem melhores em cuidar ou como se determinados homens fossem naturalmente menos habilidosos para as tarefas do cotidiano. Não é disso que se trata. Ninguém nasce sabendo acolher um bebê durante a madrugada, organizar uma rotina ou administrar as demandas de uma criança. Aprende-se fazendo.
E só aprende quem é convocado a ocupar esse lugar. Quando esperamos menos dos pais, também lhes oferecemos menos oportunidades para desenvolver competências de cuidado. Ao mesmo tempo, esperamos tanto das mães que qualquer tentativa de dividir essa responsabilidade costuma ser interpretada como privilégio, quando deveria ser apenas o esperado.
Talvez seja hora de deixarmos de elogiar homens por exercerem a própria paternidade e começarmos a perguntar por que ainda esperamos que tantas mulheres sustentem, quase sozinhas, um trabalho que deveria ser compartilhado. Também está na hora de deixarmos de tratar a corresponsabilidade como um favor ou como um acordo excepcional entre casais.
Cuidar de um filho não deveria depender da boa vontade de um pai, mas do reconhecimento de que ele também é responsável por essa história desde o primeiro dia. Enquanto continuarmos esperando mais das mães do que dos pais, seguiremos produzindo mulheres exaustas, homens afastados do cuidado cotidiano e crianças que crescem aprendendo que ainda existem responsabilidades com gênero.
Com carinho,
Raquel Pedrosa