Quem enfrenta um câncer sabe que o tempo pode definir o rumo da doença. Um diagnóstico precoce amplia as possibilidades de tratamento, reduz a necessidade de procedimentos mais agressivos e aumenta as chances de cura.
Esse foi o caso da assistente social e remadora da Equipe Sobreviver, Gilvânia Célia, de 37 anos. Tudo começou em maio de 2025 durante um momento comum da rotina. Enquanto fazia o autoexame das mamas, deitada em casa, ela percebeu um pequeno nódulo na mama esquerda.

A ultrassonografia realizada na rede privada apontou suspeita de câncer de mama. Com o resultado nas mãos, Gilvânia não teve dúvidas sobre qual seria o próximo passo. “Com o laudo na mão, tomada pelo desespero, só conseguia pensar em um lugar onde sabia que seria acolhida: o Hospital da Mulher”, disse à Eufêmea.
A suspeita surgiu no dia 6 de maio. Dois dias depois, ela já havia realizado a mamografia na unidade estadual. Em 14 de maio passou pela biópsia. No dia 27 recebeu a confirmação do diagnóstico e, naquela mesma data, saiu encaminhada para uma mastologista do Hospital Metropolitano, onde iniciou a investigação para definir o tratamento.
Entre a suspeita e o diagnóstico confirmado passaram 21 dias. “Tudo aconteceu de forma extraordinariamente rápida. Da suspeita inicial ao diagnóstico confirmado, foram apenas 21 dias”, lembra.
Para Gilvânia, a rapidez foi determinante para o seu tratamento.
“O Hospital da Mulher foi a porta de esperança e agilidade que salvou o meu tempo de resposta contra o câncer. Em um momento em que cada dia conta, a equipe não deixou a minha dor esbarrar na burocracia.”
Uma relação construída antes do câncer
Quando recebeu a suspeita de câncer, Gilvânia já conhecia os corredores do Hospital da Mulher. Meses antes, em outubro de 2024, ela havia descoberto que tinha cálculos na vesícula. O encaminhamento pelo SUS aconteceu em janeiro do ano seguinte e a cirurgia foi marcada para fevereiro.
O procedimento ocorreu no dia 17 daquele mês. Pouco tempo depois, porém, surgiram complicações. Ela passou a apresentar episódios frequentes de febre, retornou à unidade e, após novos exames, precisou passar por uma segunda cirurgia em março.
Foram sete dias de internação. Apesar do susto, o que permaneceu na memória foi a forma como foi tratada. “Fui muito bem acolhida pelo cirurgião, um médico de olhar humano ímpar. Durante a internação, contei com o carinho das equipes, o que transformou aquele momento delicado em uma experiência de amizade.”
Foi justamente essa lembrança que a fez voltar ao hospital quando surgiu a suspeita de câncer. Ela conta que chegou chorando ao ambulatório. “Quando cheguei desesperada e em prantos, fui abraçada por profissionais do local, que agilizaram tudo com um carinho imenso.”
Após o diagnóstico, recebeu acompanhamento do Serviço Social e passou a manter contato frequente com profissionais da unidade. “Elas não apenas cumpriram seus papéis profissionais. Tornaram-se rede de apoio, amigas e irmãs na minha caminhada.” À reportagem, a assistente social afirma que a cura “passou pelo Hospital da Mulher”.
Como era antes do Hospital da Mulher

Antes da inauguração do Hospital da Mulher, a assistência especializada à saúde feminina em Alagoas era prestada de forma fragmentada. Consultas, exames, cirurgias ginecológicas, atendimento oncológico e assistência obstétrica estavam distribuídos entre diferentes hospitais e maternidades da rede pública, obrigando muitas pacientes a percorrerem mais de uma unidade para concluir o diagnóstico ou dar continuidade ao tratamento.
Na capital, gestantes e mulheres encaminhadas para procedimentos especializados disputavam vagas em hospitais gerais e maternidades que concentravam diferentes perfis de atendimento. A ausência de uma unidade dedicada exclusivamente à saúde da mulher também dificultava a integração entre consultas, exames e procedimentos, tornando o fluxo de atendimento mais demorado em muitos casos.
Para pacientes do interior, o cenário costumava ser ainda mais complexo. Além do deslocamento até Maceió, muitas dependiam do sistema de regulação para conseguir vagas em serviços especializados, o que frequentemente significava passar por diferentes unidades antes de chegar ao tratamento indicado.
Uma estrutura que mudou o fluxo da assistência
Inaugurado no dia 29 de setembro de 2019 com investimento de R$ 30,8 milhões em recursos próprios do Governo de Alagoas, o Hospital da Mulher foi concebido para concentrar, em um único espaço, serviços que antes estavam distribuídos em diferentes hospitais e ambulatórios da rede pública. A proposta era reorganizar a jornada das pacientes.
Em vez de percorrer diferentes unidades para conseguir uma consulta, realizar exames, retornar ao especialista e, só então, entrar na fila para um procedimento, a ideia passou a ser reunir essas etapas em um mesmo local, reduzindo deslocamentos e evitando interrupções no tratamento.
Segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde, desde a inauguração, o hospital realizou 71.766 consultas, 120.006 exames, 16.210 cirurgias, 19.497 partos e 41.264 internações. Nesse período, também recebeu 12.002 mulheres encaminhadas por municípios do interior, consolidando-se como referência estadual para atendimento especializado.

A estrutura conta atualmente com 83 leitos, dos quais 20 são destinados à UTI adulto e 10 à UTI pediátrica, além de cinco salas cirúrgicas, nove ambulatórios especializados e 48 leitos de maternidade.
Os índices de ocupação mostram que a unidade opera com demanda elevada. Em junho deste ano, a taxa geral de ocupação foi de 79,4%. Na Clínica Médica, os leitos permaneceram completamente ocupados durante o período, enquanto a UTI adulto registrou ocupação de 89,4%.
O hospital reúne especialidades como ginecologia, mastologia, obstetrícia, endocrinologia, cirurgia ginecológica, cardiologia, urologia, nutrição, psicologia e atendimento específico para mulheres com endometriose, sendo o primeiro ambulatório da rede pública.
Também oferece exames de mamografia, ultrassonografia, tomografia, colposcopia, citologia, biópsias, exames laboratoriais, ecocardiograma e eletrocardiograma, além de uma equipe multiprofissional formada por médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, assistentes sociais, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, nutricionistas, odontólogos e doulas.
A unidade também concentra programas específicos voltados à saúde feminina. Entre eles está o Programa Decidiu, destinado ao planejamento reprodutivo, com oferta de inserção de DIU e realização de laqueaduras; a Área Lilás, voltada ao atendimento de mulheres em situação de violência; e o ambulatório de oncologia, especializado no acompanhamento de pacientes com câncer de mama e tumores ginecológicos.
Além da assistência à mulher, o hospital abriga o Programa Respirar, referência para crianças com doenças respiratórias que necessitam de atendimento especializado e procedimentos cirúrgicos, inclusive pacientes vindos de outros estados. Outro diferencial é a sala do Saúde Até Você Digital, iniciativa que utiliza a telemedicina para ampliar o acesso da população a consultas com especialistas.
Continuidade do cuidado

Para a diretora-geral do Hospital da Mulher, Yarin Rocha, um dos principais diferenciais da unidade está na organização do atendimento. Segundo ela, o objetivo é fazer com que a paciente não deixe o hospital sem saber qual será a próxima etapa do tratamento.
As consultas eletivas chegam à unidade por meio do Sistema Nacional de Regulação (Sisreg). Quando o médico identifica a necessidade de exames complementares ou de uma nova avaliação, a própria Central de Agendamentos do hospital organiza os retornos. Nos casos em que há indicação cirúrgica, a paciente realiza os exames pré-operatórios e volta a ser avaliada antes que o procedimento seja incluído na programação.
Se houver necessidade de internação, o Núcleo Interno de Regulação é acionado para disponibilizar um leito e organizar toda a transferência, garantindo a continuidade da assistência.
“A continuidade da assistência acontece por meio da nossa Central de Agendamentos, que permite a marcação de exames, consultas e procedimentos logo após o atendimento”, explica Yarin.
Segundo a diretora, esse modelo reduz interrupções durante o tratamento e beneficia principalmente mulheres que vivem fora da capital, já que evita deslocamentos sucessivos em busca de atendimento.
“Todos os atendimentos são de extrema importância, mas a facilidade para dar continuidade ao cuidado permite o acompanhamento dos casos e evita que a paciente fique sem assistência depois da primeira consulta.”
Ela destaca ainda que o hospital reúne diferentes etapas da assistência em um mesmo espaço. “O hospital oferece desde exames e consultas especializadas até assistência ao parto normal, com acompanhamento de doulas e uma sala de amamentação equipada para acolher as puérperas.”
Além disso, segundo Yarin, os profissionais participam regularmente de capacitações voltadas tanto ao aperfeiçoamento técnico quanto ao fortalecimento da assistência humanizada.
O cuidado que começa na escuta

Se a estrutura física e a concentração de serviços representam a face mais visível do Hospital da Mulher, é no contato entre profissionais e pacientes que a proposta de atendimento humanizado ganha forma.
A enfermeira do Hospital da Mulher, Anne Costa, acompanha diariamente mulheres que chegam à unidade em situações completamente distintas. Algumas procuram atendimento durante o trabalho de parto. Outras chegam a ser encaminhadas após exames que indicam suspeita de câncer. Há ainda pacientes que precisam de cirurgias ginecológicas, acompanhamento clínico ou acolhimento após episódios de violência.
Ela explica que o atendimento começa antes mesmo da consulta médica. Após o cadastro, a paciente é acolhida pela equipe de enfermagem e passa pela classificação de risco quando necessário. Dependendo da situação, segue diretamente para consultas, exames, procedimentos ou internação.
Segundo Anne, esse fluxo foi pensado para evitar que a mulher precise recomeçar o processo a cada etapa do tratamento. “Todo esse fluxo foi pensado para garantir segurança, agilidade e um cuidado integral durante toda a permanência da paciente no hospital.”
Na prática, a enfermagem acompanha cada fase da assistência. Além dos procedimentos técnicos, cabe aos profissionais orientar pacientes, esclarecer dúvidas, reduzir inseguranças e identificar demandas que vão além do quadro clínico.
“Buscamos acolher cada mulher com respeito, empatia e escuta qualificada. Humanizar é cuidar da paciente como um todo, entendendo que cada uma tem sua história, seus medos e suas necessidades.”
A enfermeira afirma que a mudança pode ser percebida no comportamento das próprias pacientes. “Vemos mulheres chegarem inseguras, muitas vezes enfrentando um diagnóstico difícil ou no momento do parto, e saírem confiantes e agradecidas. Isso mostra que o Hospital da Mulher vai além da assistência à saúde. Ele representa esperança, dignidade e atendimento humanizado.”
Esse acolhimento, segundo ela, faz diferença especialmente para mulheres vindas do interior, que antes precisavam percorrer diferentes hospitais para realizar consultas, exames e cirurgias.
“Eu me senti respeitada”

A enfermeira alagoana Cynthia Kássia, de 34 anos, conhece os dois lados da assistência obstétrica. O primeiro filho nasceu em um hospital particular. A segunda gestação foi acompanhada pelo Sistema Único de Saúde.
Ela admite que chegou ao Hospital da Mulher receosa. A experiência na rede privada fazia surgir dúvidas sobre como seria atendida no SUS.
As incertezas começaram a desaparecer ainda antes do parto. Durante a reta final da gravidez, passou por dois falsos alarmes e procurou a unidade nas duas ocasiões.
As avaliações fizeram com que se sentisse segura para retornar quando entrou, de fato, em trabalho de parto. “Quando a minha bolsa estourou, automaticamente procurei o Hospital da Mulher.”
Na triagem, comunicou que desejava uma cesariana com anestesia raquidiana. Conta que, em nenhum momento, teve sua decisão questionada. “Eu me senti muito respeitada, porque respeitaram a minha vontade.”
Logo após o nascimento de Theo, pôde fazer o contato pele a pele com o bebê ainda na sala cirúrgica, prática considerada fundamental para fortalecer o vínculo entre mãe e filho e estimular o início da amamentação.
Durante as 48 horas de internação, o recém-nascido recebeu vacinas, passou pelos exames de rotina, foi registrado em cartório dentro do próprio hospital e ainda foi avaliado por uma fonoaudióloga para descartar alterações no frênulo lingual, já que o filho mais velho havia apresentado língua presa.
Enquanto isso, Cynthia também recebeu assistência. Como apresentava queda nas taxas de ferro, fez reposição medicamentosa antes da alta. Diante das dificuldades para amamentar, foi acompanhada por uma consultora em aleitamento materno.
Ela resume a experiência como um conjunto de cuidados que evitou que precisasse procurar outros serviços depois de deixar a maternidade. “Nas 48 horas em que fiquei lá, tudo que foi preciso foi feito antes de a gente vir para casa.”
O medo que deu lugar à confiança

A técnica de enfermagem Joseane Fagundes também saiu do Hospital da Mulher com uma experiência diferente da que imaginava.
Ela procurou atendimento depois de perceber a saída do tampão mucoso. Durante a avaliação, a equipe constatou que a bebê apresentava tamanho acima do esperado para a idade gestacional.
Após confirmação por ultrassonografia, recebeu duas possibilidades: indução do parto ou cesariana. A decisão ficou com ela. “Eu optei pelo parto cesariano e minha escolha foi respeitada”, diz.
Mesmo trabalhando na área da saúde, Joseane admite que sentia medo da cirurgia. Segundo ela, esse receio começou a desaparecer ainda no centro cirúrgico. “Quando cheguei lá, me senti muito bem pelo acolhimento da equipe.”
Ela recorda que médicos e enfermeiros explicavam cada procedimento realizado, tanto para ela quanto para o marido. Logo após o nascimento, pôde permanecer com a filha, que recebeu vacinas e realizou o teste do pezinho antes da alta hospitalar. “Eu só tenho que falar coisas boas. Dou nota dez para toda a equipe.”
Um hospital que vai além da maternidade
Embora tenha se tornado conhecido pelos partos realizados diariamente, o Hospital da Mulher concentra uma rede de atendimento que extrapola a assistência obstétrica.
Na área oncológica, mantém ambulatório especializado para acompanhamento de mulheres com câncer de mama e tumores ginecológicos, como os de colo do útero, ovário e endométrio.
Também oferece atendimento específico para endometriose, climatério, menopausa, planejamento reprodutivo, infertilidade, implantação de DIU e realização de laqueaduras. As pacientes com miomas contam com tratamento cirúrgico na própria unidade.
Outro serviço que ganhou espaço é a Rede de Atenção às Violências (RAV), destinada às mulheres vítimas de violência sexual e doméstica. Além do atendimento médico, a estrutura reúne assistência psicológica, serviço social, atendimento policial e coleta de vestígios para produção de provas periciais.
O trabalho acontece em articulação com a Delegacia Especializada, Ministério Público, Defensoria Pública e demais órgãos que integram a rede de proteção.
A unidade não realiza acompanhamento pré-natal de gestantes de alto risco e nem parto de alto-risco.
Os avanços ampliaram o acesso à assistência especializada
A ampliação da estrutura do Hospital da Mulher também trouxe impacto para o acesso aos serviços especializados. Um dos exemplos está na mamografia, principal exame para o rastreamento do câncer de mama. Atualmente, o serviço funciona em sistema de porta aberta e não registra fila de espera, permitindo que as pacientes realizem o exame de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h.
A procura pelos demais serviços, no entanto, acompanha o crescimento da demanda concentrada na unidade. Hoje, o tempo médio de espera é de dois a três meses para ultrassonografias, 45 dias úteis para biópsias, cerca de 90 dias para consultas especializadas e aproximadamente 120 dias para cirurgias ginecológicas, sendo a histerectomia o procedimento com maior demanda na fila de regulação.
Segundo a direção do hospital, esses prazos variam de acordo com a disponibilidade de leitos e com o fluxo de encaminhamentos realizados pelo Sistema Nacional de Regulação (Sisreg), pela Central Estadual de Regulação, pelos municípios e pelo Núcleo Interno de Regulação da própria unidade.