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Entre o desejo e o tempo: a pressão para decidir se quero ser mãe

Crédito da Foto: Júlio Vasconcelos

Por Raíssa França – @raissa.franca

O primeiro episódio da sexta temporada de Sessão de Terapia me deu um soco no estômago. Daqueles que fazem a gente querer desligar a televisão assim que os créditos começam a subir, não porque o episódio foi ruim, mas porque ele acertou exatamente em um lugar que a gente vinha tentando não olhar.

Érica chega ao consultório com uma questão que parece simples, mas não é: ser ou não ser mãe. Ela tem 35 anos e está cansada de sentir que precisa tomar uma decisão que deveria ser íntima, mas que, para as mulheres, quase nunca é apenas íntima. Porque existe a idade, relacionamento, desejo do parceiro, a família perguntando, a sociedade lembrando e, o tempo inteiro, o relógio biológico correndo.

Em determinado momento, ela diz: “Decidir ser mãe é muito difícil e não é igual decidir ser pai”. Foi essa frase que ficou em mim.

Porque não é mesmo. Para um homem, a paternidade parece ter uma porta que permanece aberta por muito mais tempo. Para nós, existe sempre alguém lembrando que essa porta pode se fechar. E, de repente, uma decisão que deveria nascer do desejo passa a ser tomada também pelo medo. Medo de esperar demais, de se arrepender, de não conseguir engravidar, de escolher não ter filhos, e um dia, sentir falta de uma vida que nunca existiu. Medo de ter um filho e descobrir que aquilo nunca foi exatamente o que se queria.

Tenho 34 anos e não me enxergo mãe agora. Essa frase, sozinha, parece simples. Mas experimente dizê-la em voz alta e observe quantas pessoas imediatamente começam a procurar uma resposta para você.

Desde que comecei meu relacionamento, as cobranças apareceram de diferentes formas. Já ouvi que vou ficar velha e não vou conseguir ser mãe. Já ouvi que não presta criar menino dos outros quando falei sobre meu desejo de adotar. Já ouvi que não posso ser madrasta porque meu marido já tem um filho. Já ouvi que preciso decidir logo. Preciso decidir logo. Mas logo quando? E por quê?

É justamente isso que me incomoda. Eu não quero ter pressa para decidir uma das coisas mais definitivas da minha vida. Ao mesmo tempo, existe uma sensação incômoda de que eu não tenho todo o tempo do mundo para descobrir o que quero. É uma espécie de armadilha.

Se eu digo que não quero ser mãe agora, alguém entende que eu não quero nunca. Se digo que talvez queira, perguntam quando. Se digo que não sei, dizem que preciso me decidir. Se digo que penso em adoção, aparecem os questionamentos. Se digo que não me imagino grávida, surgem olhares de estranhamento. E, no meio de tudo isso, onde fica a possibilidade de simplesmente não saber?

Talvez essa seja uma das coisas que mais me atravessaram no episódio de Sessão de Terapia: a possibilidade de uma mulher adulta não ter uma resposta pronta para uma pergunta que parece obrigatória.

Eu não sou uma pessoa que odeia a maternidade. Também não romantizo. Acompanho amigas que são mães. Vejo mulheres que encontraram na maternidade uma experiência transformadora, mulheres que amam profundamente seus filhos e que também se sentem exaustas, mulheres que descobriram uma versão de si mesmas que não conheciam. Vejo diferentes formas de maternar e entendo que não existe uma única experiência possível.

Mas nenhuma dessas experiências é minha. Pelo menos não ainda.

Não me vejo gestando. Quando falo sobre adoção, porém, ainda recebo aqueles olhares truncados, como se estivesse propondo uma alternativa menos legítima, uma espécie de plano B. Como se uma criança adotada ocupasse um lugar diferente de uma criança gerada.

À medida que a pressão aumenta, o tempo passa e eu me pego fazendo uma coisa que nunca imaginei que faria: tentando encaixar uma criança na minha vida antes mesmo de saber se quero uma criança nela. Começo a pensar onde caberia, como mudaria minha vida, rotina, trabalho, relacionamento, financeiro, casa, meu tempo, liberdade… a minha vida!

E, quando penso em tudo isso, às vezes parece que não existe espaço. Mas talvez essa também seja uma conclusão precipitada. Talvez não exista espaço porque estou tentando imaginar uma vida completamente diferente dentro da vida que tenho hoje. Talvez uma criança não precise caber perfeitamente na vida que já existe. Talvez a vida precise se transformar.

O problema é que eu não sei se quero essa transformação. E acho que deveria ser permitido dizer isso.

Existe uma crueldade silenciosa em transformar a maternidade em uma corrida contra o tempo. Porque o relógio biológico pode até existir, mas ele não deveria ser o único relógio a determinar uma decisão tão complexa.

Existe o relógio do desejo, maturidade, da vida que construímos… Talvez eu seja mãe um dia. Talvez não seja. Talvez seja pela adoção. Talvez eu mude de ideia sobre a gestação. Talvez eu descubra que não quero nenhuma das duas coisas.

Eu realmente não sei. E, pela primeira vez, começo a entender que talvez não precise saber hoje.

O que sei é que não quero tomar essa decisão porque alguém disse que estou ficando velha. Não quero ter um filho para cumprir uma expectativa. Não quero adotar para provar que sou capaz de maternar. Não quero ser mãe porque tenho medo de me arrepender de não ter sido.

Quero, se um dia acontecer, que seja porque existe em mim algum desejo que seja maior do que o medo. E talvez seja isso que ainda esteja tentando descobrir. Não se eu posso ser mãe, mas se eu quero. E como eu quero.

Foto de Raíssa França

Raíssa França

Cofundadora do Eufêmea, Jornalista formada pela UNIT Alagoas e pós-graduanda em Direitos Humanos, Gênero e Sexualidade. Em 2023, venceu o Troféu Mulher Imprensa na categoria Nordeste e o prêmio Sebrae Mulher de Negócios em Alagoas.
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