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Por que as mulheres adoecem tanto?

Essa é uma pergunta que vem insistentemente à minha cabeça. E eu não estou falando apenas do lugar de uma psicóloga que atende mulheres todos os dias. Estou falando também de números.

O Vigitel 2024, do Ministério da Saúde, encontrou diagnóstico médico de depressão em 19,7% das mulheres adultas entrevistadas nas capitais brasileiras e no Distrito Federal. Entre os homens, o percentual foi de 8,3%. Em 2020, esses números eram de 14,8% e 6,0%, respectivamente. Ou seja, não apenas existe uma diferença entre homens e mulheres, como esse indicador aumentou entre as mulheres nesse período.

Talvez seja tentador olhar para esses números e concluir que as mulheres são mais vulneráveis à depressão. Mas essa explicação é insuficiente. Esse adoecimento não acontece por acaso.

Uma mulher não acorda pela manhã e decide acumular trabalho remunerado, tarefas domésticas, cuidado dos filhos, acompanhamento da vida escolar, organização da casa, cuidado de familiares e ainda administrar emocionalmente as relações ao seu redor. Essas responsabilidades são distribuídas socialmente, e essa distribuição ainda está longe de ser equilibrada.

Outro estudo, divulgado pela Organização Internacional do Trabalho em 2025, mostrou que, no Brasil, as mulheres dedicam, em média, 9,8 horas semanais a mais que os homens ao trabalho de cuidado não remunerado. Entre mulheres negras, essa diferença chega a 22,4 horas.

Isso significa que existe uma quantidade enorme de trabalho acontecendo fora daquilo que tradicionalmente chamamos de “trabalho”. Grande parte dele não aparece em contracheque, currículo ou relatório de produtividade, mas aparece no corpo.

E o corpo também dá sinais de cansaço. O Vigitel 2025, que passou a investigar indicadores relacionados ao sono, mostrou que 21,3% das mulheres adultas tinham duração curta de sono, contra 18,9% dos homens.

Sono insuficiente não explica, sozinho, um quadro de sofrimento psíquico, evidentemente. Mas ele nos lembra que saúde mental não pode ser separada das condições concretas de vida.

Por isso, discutir a saúde mental das mulheres sem discutir as condições em que elas vivem é uma forma bastante confortável de individualizar um problema que também é social.

Reitero que não se trata aqui de negar a dimensão individual do sofrimento. História de vida, relações, personalidade, experiências traumáticas, condições biológicas e tantos outros fatores também participam da construção de cada quadro clínico.

Mas uma psicologia que olha apenas para o indivíduo corre o risco de transformar contexto em característica pessoal. E, como psicóloga e docente, acredito que esse seja um dos pontos mais importantes quando discutimos saúde mental feminina.

Mulheres não adoecem simplesmente porque são mulheres. Adoecem porque vivem, em diferentes graus e de maneiras muito desiguais, condições sociais que podem aumentar sua exposição à sobrecarga, à violência, à precarização do tempo, à desigualdade no cuidado e a outras fontes de sofrimento.

Quando os números se repetem, talvez seja hora de pararmos de chamá-los de coincidência e nos perguntarmos que sociedade estamos construindo para que tantas precisem adoecer.

Com carinho,

Raquel Pedrosa

Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2006-2024: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025.

INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION. Políticas para a corresponsabilidade no mundo do trabalho. Brasília: OIT; Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, 2025.

BRASIL. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2025. Dados sobre duração do sono e sintomas de insônia. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Depressive disorder (depression). Geneva: World Health Organization, 2025.

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Raquel Pedrosa

Psicóloga clínica formada pela UFAL (CRP 15/3938). Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza. Professora universitária no Centro Universitário de Maceió.
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