A eleição já começou. E, enquanto candidatos correm para definir estratégias, ajustar discursos e disputar a atenção do eleitorado, existe uma pergunta que muitos homens ainda não estão fazendo: o que você realmente entende sobre gênero?
Porque, a esta altura da disputa, provavelmente você já sabe que precisa conversar com as mulheres. Talvez já esteja falando sobre segurança, saúde, maternidade, trabalho, renda, creches, violência. Talvez mulheres já estejam ocupando espaços importantes na sua campanha. Mas isso, sozinho, não significa que você compreenda as desigualdades de gênero que atravessam a vida delas.
E essa diferença pode aparecer na campanha, no discurso e, principalmente, nas propostas que você apresenta ao eleitorado.
Mulheres são maioria do eleitorado brasileiro. Mas não são um grupo homogêneo, com uma única demanda ou uma única forma de pensar. Mulheres negras, mulheres periféricas, mães solo, empresárias, trabalhadoras, jovens, idosas, mulheres com deficiência, mulheres LGBTQIA+ e tantas outras vivem a política a partir de experiências diferentes.
Quando você olha para as mulheres apenas como “voto feminino”, você perde tudo isso. E é aí que muitos candidatos homens ainda estão errando.
Alguns já perceberam que falar sobre mulheres dá voto. Então incorporam determinadas palavras ao discurso, colocam mulheres em espaços estratégicos, fazem campanhas sobre violência, maternidade e empreendedorismo feminino.
Mas existe uma diferença enorme entre incorporar uma pauta e compreender uma pauta. É possível falar sobre feminicídio sem entender como a violência de gênero funciona. É possível defender creches sem compreender como a divisão desigual do trabalho doméstico afeta a autonomia econômica das mulheres.
É possível falar em empreendedorismo feminino sem perceber que muitas mulheres empreendem porque estão excluídas de outras formas de inserção no mercado de trabalho. É possível ter mulheres na equipe e ainda assim reproduzir uma estrutura em que os homens continuam decidindo tudo.
E existe ainda um problema mais sofisticado: homens que aprenderam a surfar na pauta das mulheres.
Eles sabem quais palavras usar, sabem quais temas geram identificação, sabem que determinadas imagens funcionam. Sabem que falar de violência contra a mulher produz repercussão. Mas, quando a pauta deixa de ser discurso e passa a exigir mudança concreta, a conversa muda.
Defender os direitos das mulheres não é apenas saber falar sobre elas. É entender as estruturas que produzem desigualdade e pensar políticas capazes de enfrentá-las. É justamente aí que uma consultoria de gênero pode fazer diferença em uma candidatura.
Não para ensinar um candidato a “falar bonito” sobre mulheres, mas para ajudá-lo a entender o que existe por trás das pautas que ele pretende defender.
Para identificar contradições no discurso. Para perceber onde uma proposta pode reproduzir desigualdades que a própria campanha pretende combater. Para construir uma comunicação que não trate mulheres como um grupo eleitoral genérico. Para preparar o candidato e sua equipe para temas que hoje atravessam a política, a comunicação e a disputa de narrativas.
Gênero atravessa educação, saúde, segurança, trabalho, renda, mobilidade, assistência social, primeira infância, orçamento e até a maneira como uma candidatura se comunica com a sociedade.
E tem outra coisa que os homens precisam entender: vocês não precisam ser mulheres para defender políticas para mulheres, mas precisam estar dispostos a aprender sobre desigualdades que não vivem na própria pele.
Isso não diminui um candidato. Pelo contrário: mostra preparo.
E, numa eleição em que as mulheres são maioria do eleitorado, compreender gênero não deveria ser tratado como um detalhe da campanha, uma obrigação burocrática ou uma pauta para preencher espaço no plano de governo. É uma ferramenta para compreender melhor a própria sociedade que se pretende representar.
Por isso, talvez a pergunta que um candidato homem devesse fazer agora não seja apenas: “Como eu conquisto o voto das mulheres?” Mas: “O que eu ainda não estou enxergando sobre a vida delas?”