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O pior inimigo de uma mãe é outra mãe (e a melhor amiga também)

Uma das coisas que eu considero mais perversas da maternidade contemporânea é a lógica social de performance materna e dos efeitos disso nas mulheres. Enquanto somos cobradas por uma lista interminável de expectativas, também aprendemos a olhar umas para as outras como se estivéssemos diante de uma banca examinadora.

Quem amamentou. Quem trabalhou até o último dia antes do parto. Quem fez introdução alimentar seguindo todas as recomendações. Quem oferece açúcar. Quem dorme com o filho. Quem fez o filho dormir sozinho. Quem voltou ao corpo de antes. 

A comparação parece inevitável porque a maternidade também foi capturada pela lógica da performance. Existe uma maneira supostamente correta de maternar e, quanto mais informações temos, mais sofisticados ficam os critérios pelos quais podemos nos sentir inadequadas.

O problema é que, quando a maternidade vira desempenho, a outra mãe deixa de ser apenas uma mulher vivendo uma experiência semelhante. E aqui eu destaco: SEMELHANTE. Nunca igual. Mas diante de tantos parâmetros medindo a maternidade de maneira generalista, a ideia da experiência singular parece se perder. 

É curioso porque, em tese, talvez ninguém tivesse mais condições de compreender uma mãe do que outra mãe. Ela conhece o cansaço da privação do sono e a ambivalência de amar profundamente um filho e, ao mesmo tempo, desejar algumas horas em que ninguém precise de você.

Ainda assim, é justamente essa mulher que compara as maternidades como se estivéssemos falando do mesmo contexto. Eu entendo que, nem sempre essas comparações são feitas com a intenção de causar um mal-estar.. Algumas vezes  vêm acompanhadas de preocupação, curiosidade ou até de uma tentativa desajeitada de ajudar. Mas existe algo importante por trás delas: a ideia de que a experiência da outra pode servir como medida para avaliar a nossa própria.

Na psicanálise, sabemos que a relação com o outro não é tão simples. O outro pode ser semelhante, mas também pode funcionar como espelho, comparação e ameaça. Aquilo que uma mulher consegue fazer pode revelar, para outra, justamente aquilo que ela sente que não consegue. E quando estamos submetidas a um ideal de maternidade impossível, a diferença pode ser vivida como fracasso.

Comecemos a naturalizar as diferenças na maternidade. O que funcionou para mim, pode não funcionar para a outra e está tudo bem. A sua maternidade não precisa ser igual à minha para que a minha seja legítima. A minha escolha não precisa servir para corrigir a sua. Seu filho não precisa estar mais adiantado que o meu. 

Lembremos que existe uma mulher com sua história, suas condições materiais, seus desejos, seus limites, sua rede de apoio e suas possibilidades. Existe outra mulher com uma história completamente diferente. Compará-las como se estivessem partindo do mesmo lugar é uma forma bastante eficiente de produzir culpa.

Nesse espaço, meu objetivo não é pregar uma irmandade automática entre mães. até porque a solidariedade é uma construção que requer tempo. O que te desafio aqui, é acolher a mulher a sua frente sem usar a sua mesma régua. Nós não precisamos de comparações. O que precisamos é de alguém que nos lembre que somos únicas e que estamos fazendo o possível. 

Em tempos em que a maternidade já exige tanto desempenho, talvez isso seja uma das formas mais bonitas de cuidado entre mulheres.

Com carinho,
Raquel Pedrosa 

Foto de Raquel Pedrosa

Raquel Pedrosa

Psicóloga clínica formada pela UFAL (CRP 15/3938). Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza. Professora universitária no Centro Universitário de Maceió.
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