Por Raíssa França – @raissa.franca
Talvez uma das coisas mais perigosas que ensinaram às mulheres foi que ser escolhida seria uma espécie de prova de valor. Escolhida para namorar, casar, amar. Escolhida para ser desejada, apresentada à família e tantas outras coisas. Foi na minha terapia que eu lembrei que, quando eu era mais nova, eu esperava ser escolhida. E adivinhem? Eu não era escolhida.
Antes que você faça qualquer análise sobre isso, preciso defender aquela adolescente que eu era. Eu não era a mulher que sou hoje. Não existia letramento racial e de gênero em mim. Eu não tinha repertório para entender o que significava ser uma mulher negra em uma sociedade que hierarquiza corpos, afetos e desejos. Eu não sabia nomear o racismo que atravessava algumas das coisas que eu sentia. Não sabia falar sobre colorismo, padrão estético, autoestima racial ou sobre a maneira como o desejo também pode ser construído socialmente.
Vou citar aqui o livro da pesquisadora Valeska Zanello que traz a ideia da “prateleira do amor”, uma metáfora para explicar como as mulheres são colocadas em diferentes lugares dentro da lógica dos relacionamentos.
Algumas ficam nos andares mais altos, aquelas que correspondem mais de perto ao que a sociedade definiu como desejável. Outras ficam mais abaixo. E há aquelas que parecem sequer ter sido colocadas na prateleira. E quem decide quem fica em cima?
Não é uma pessoa. É um conjunto de regras que aprendemos desde cedo, muitas vezes sem perceber. É o corpo que precisa caber em determinado formato. É a pele que precisa se aproximar da branquitude. É a juventude tratada como sinônimo de beleza. É a feminilidade que precisa ser delicada, magra, disponível e, ao mesmo tempo, nunca disponível demais.
Eu era ‘fora do padrão’, apesar de ser uma mulher (até os 30 e poucos anos), de cabelo alisado. A prateleira é construída por aquilo que a sociedade repete até parecer natural. Por aquilo que aparece nas propagandas, nos filmes, nas novelas, nas redes sociais. Pelo tipo de mulher que costuma ser apresentada como a bonita, a desejada, a que merece ser disputada.
E quando você cresce sem se reconhecer nesse lugar, alguma coisa vai sendo construída dentro de você. Eu ficava pensando sobre esse meu lugar e tentando entender por que eu não era a escolhida. Eu até era, sabe? Mas quase sempre no sentido do “na baixa”, do “ninguém pode saber”, do “não quero nada sério com você”, do “namoro, mas ‘quero’ você também”.
Hoje, consigo entender que ser uma mulher negra também significa lidar com uma série de representações sobre o nosso corpo. Existe a sexualização da mulher negra, mas também existe a desumanização, a invisibilidade e a ideia de que determinados corpos negros são menos associados ao amor romântico.
Você pode ser considerada “bonita” e, ainda assim, não se sentir desejada. Pode receber elogios e continuar procurando, no olhar do outro, uma confirmação que nunca parece suficiente.
E quando você é uma mulher com deficiência, por exemplo, existe o capacitismo atravessando essa experiência. Quando é uma mulher trans, existe a transfobia. Quando envelhece, o etarismo. Quando é gorda, existe uma sociedade inteira dizendo que seu corpo precisa mudar antes de poder ser desejado. Quando esses marcadores se encontram, a prateleira fica ainda mais difícil.
Claro que cada pessoa tem suas preferências. Mas de onde vêm essas preferências? Quem ensinou o que é bonito? Quem ensinou o que é feminino? Quem ensinou qual corpo merece ser admirado e qual corpo precisa ser escondido?
Enquanto os homens aprendem a amar muitas coisas, as mulheres são ensinadas a amar os homens, já dizia a pesquisadora Valeska Zanello. Se eu aprendo desde pequena que o amor de um homem é uma das grandes confirmações do meu valor, ser escolhida deixa de ser apenas uma experiência afetiva. Passa a ser uma espécie de validação.
Eu demorei para entender isso e, honestamente, talvez ainda esteja entendendo. Porque não é por ser uma mulher que hoje consegue compreender e nomear determinadas questões que eu estou livre delas.
Só que existe um problema quando passamos a vida esperando ser escolhidas: podemos esquecer que também temos desejo. Podemos esquecer que também podemos olhar, recusar, dizer não e que podemos decidir que aquela pessoa não serve para nós.
A pergunta deixa de ser apenas “será que alguém vai me escolher?” e começa a ser “eu escolheria essa pessoa?”. E, para algumas de nós, talvez essa seja uma das perguntas mais importantes que podemos aprender a fazer. Não apenas perguntar, mas trabalhar isso dentro da gente. Porque eu sei que, no fundo, a gente quer ser escolhida. O desejo de ser desejada, amada e reconhecida pelo outro não desaparece só porque a gente passou a entender de onde ele vem.
O que pode mudar é o lugar que essa escolha ocupa na nossa vida. A gente pode querer ser escolhida sem transformar isso em necessidade. Pode desejar o amor de alguém sem fazer desse amor a prova de que temos valor. Pode gostar de ser desejada sem passar a vida tentando provar que somos desejáveis.