Uma das maiores dificuldades de falar sobre a maternidade é encontrar espaço para duas verdades que parecem ser incompatíveis: a possibilidade de amar profundamente um filho e, ainda assim, achar a maternidade muito difícil. O fato é que uma coisa não anula a outra.
Existe uma expectativa de que o amor materno deveria tornar tudo mais fácil. Como se amar fosse suficiente para dar conta das noites interrompidas, das mudanças no corpo, da falta de tempo e da sensação de que, depois que um filho nasce, uma parte da nossa vida passa a depender de alguém que precisa de nós para quase tudo. Mas vamos convir que o amor não elimina o cansaço, a saudade de quem éramos ou a vontade de passar algumas horas sem precisar atender a ninguém.
O que temos que entender é que não precisamos gostar de tudo sobre a maternidade para amar alguém. Te convido a pensar por outro viés. Pense em uma pessoa que você ama muito, pode ser um familiar ou amigo. Será que você consegue amar tudo nessa pessoa ou você o ama apesar de alguma coisa?
A maternidade também nos coloca diante dessa ambiguidade, mas aqui se escancara o quanto ela não combina com a imagem socialmente idealizada que aprendemos a esperar dela. Podemos sentir orgulho e insegurança no mesmo dia. Podemos estar profundamente felizes e desejar que aquele dia termine logo. Sabe por que? Porque antes de sermos mães, somos humanas. A ambivalência não é uma falha no amor, ela apenas faz parte da experiência humana.
Talvez seja importante dizer isso porque, quando esperamos que a maternidade seja naturalmente prazerosa, qualquer dificuldade passa a ser interpretada como sinal de que existe alguma coisa errada com a mãe. E assim a mulher começa a sofrer não apenas com aquilo que está vivendo, as dificuldades reais de cuidar de outro ser humano, mas também com a culpa de não estar vivendo aquilo da maneira como imaginou que deveria.
Há ainda outra coisa que pouco se fala, mas que também está inclusa no pacote. A maternidade nos confronta com a perda de controle. Por mais que uma mãe leia, pesquise e planeje, existe uma pessoa diante dela que terá seu próprio temperamento, seus próprios desejos e, com o tempo, suas próprias escolhas. Não existe um manual capaz de dar garantias.
Acredito que seja uma das primeiras experiências em que percebemos, de maneira tão concreta, que amar alguém também significa conviver com a impossibilidade de controlar completamente o que acontecerá com essa pessoa. Essa, para mim, é uma das partes mais assustadoras de toda essa experiência.
E é justamente por isso que não acho necessário romantizar a maternidade para reconhecer sua importância. Não precisamos dizer que é a melhor coisa do mundo todos os dias, nem precisamos transformar o cansaço em gratidão e nem a renúncia em prova de amor. Podemos simplesmente reconhecer que existe algo profundamente complexo em cuidar de alguém que amamos enquanto tentamos continuar cuidando de nós mesmas.
Com carinho,
Raquel Pedrosa