Colabore com o Eufemea
Advertisement

Quanto tempo uma mãe precisa para voltar a ser quem era?

Atire a primeira pedra a mulher que nunca passou por um puerpério se perguntando quando voltaria ao normal. Em meio ao cansaço e à adaptação, a ansiedade de retomar a rotina se mistura ao medo pelo mesmo motivo. A ambivalência dos sentimentos, em um momento que supostamente deveria ser exclusivamente de alegria, pode nos deixar um pouco confusas. Não é?

O puerpério costuma ser compreendido, principalmente, a partir das transformações físicas e hormonais que acontecem depois do parto. E, evidentemente, elas são importantes. O corpo passou por uma gestação, pelo parto e por uma série de alterações fisiológicas que exigem tempo de recuperação. Mas reduzir o puerpério aos hormônios é insuficiente para explicar a ambivalência que nos atinge. O que precisamos entender é que existe também um puerpério subjetivo/emocional que ainda é pouco explorado.

Uma mulher pode estar fisicamente recuperada e ainda não ter conseguido compreender completamente o que aconteceu com ela. Porque o nascimento de um filho não produz apenas uma criança. Ele também produz uma ruptura na continuidade da vida daquela mulher. Algumas coisas permanecem, outras desaparecem e muitas precisam ser reorganizadas.

Ela passa a se reconhecer como mãe, mas continua sendo a mulher que existia antes disso. E encontrar uma maneira possível de fazer essas duas experiências coexistirem é uma das tarefas mais delicadas desse período. Por isso, não acredito muito na ideia de um prazo universal para “voltar a ser quem era”.
Algumas mulheres encontram rapidamente aspectos de si mesmas que pareciam ter ficado adormecidos.

Outras precisam de mais tempo para voltar a desejar, trabalhar, sair, cuidar do próprio corpo, retomar amizades, se interessar por outras coisas além do filho. Há quem atravesse esse processo de maneira mais tranquila e há quem precise de um longo trabalho para compreender a mulher que nasceu junto com aquela criança.

Depois de uma experiência tão transformadora, voltar a ser quem se era pode nem ser possível. E isso não precisa significar que a mulher se perdeu. Pode significar apenas que ela está tentando descobrir como continuar sendo ela mesma depois de tudo o que aconteceu. Tentando se adaptar e se reconstruir diante dessa nova realidade. E aqui vale ressaltar, existe uma diferença importante entre se adaptar a uma nova realidade e desaparecer dentro dela.

A maternidade pode ocupar muito espaço. Em alguns momentos, quase todo o espaço. Há demandas concretas, um bebê que depende da mãe, noites mal dormidas, mudanças na relação com o parceiro, afastamento ou transformação da vida profissional, novas responsabilidades e uma quantidade enorme de decisões que precisam ser tomadas diariamente.No meio de tudo isso, é possível que a mulher fique para depois e estar assim durante um tempo é super compreensível, mas fazer disso uma condição permanente é outra coisa.

Por isso, para além do cuidado com o recém-nascido, a rede de apoio precisa incluir o olhar atento à puérpera para ajudá-la a não desaparecer completamente em sua própria história. No tempo dela, do jeito dela, mas sempre lhe possibilitando questionar, se expressar e experimentar sua nova realidade. Lembrando que não há um prazo certo para que isso aconteça. Podemos estar aqui falando dos tradicionais 40 dias tão difundidos por aí, mas podemos estender até durante os primeiros anos de uma criança.

Além disso, o reencontro consigo pode acontecer aos poucos mesmo. Nos pequenos sinais que a mulher vai nos dando. Na vontade de se cuidar que reaparece, nos hábitos antigos que retornam, em passeios que não incluem filhos e até na tal culpa que ameniza por querer se priorizar.

Com o tempo, aprendemos que, no fim das contas, o que está em jogo não é sobre voltar para algum lugar. É sobre se encontrar e reconhecer a mulher que nasceu junto com aquele parto.. Em outras palavras, não precisamos voltar exatamente para quem éramos, mas precisamos de espaço para descobrir quem somos agora para compreender que as duas podem fazer parte da mesma história.

Com carinho,
Raquel Pedrosa

Foto de Raquel Pedrosa

Raquel Pedrosa

Psicóloga clínica formada pela UFAL (CRP 15/3938). Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza. Professora universitária no Centro Universitário de Maceió.
plugins premium WordPress