Eu entendo o cansaço. Entendo a descrença na política, a frustração com promessas não cumpridas e a sensação de que, independentemente de quem ocupa o poder, nossas vidas continuam atravessadas pelos mesmos problemas. Mas, quando falamos de mulheres, precisamos olhar para a abstenção também a partir de uma perspectiva de gênero: quem perde quando nos afastamos dos espaços de decisão?
No primeiro turno das eleições de 2026, mais de 33 milhões de eleitores não compareceram para votar. A abstenção chegou a 21,08% do eleitorado, o maior índice registrado em eleições gerais desde 1998. Somam-se a esse número 2,2 milhões de votos em branco e 3,6 milhões de votos nulos: quase 6 milhões de escolhas que ficaram fora da contagem dos votos válidos.
São milhões de pessoas que, por diferentes razões, não participaram da escolha de seus representantes. Não podemos presumir que todas estejam desinteressadas: há quem esteja frustrado, quem não se reconheça nas candidaturas e quem enfrente obstáculos concretos para votar. Ainda assim, esses números nos obrigam a pensar sobre o custo coletivo do afastamento político.
Nós, mulheres, somos a maioria da população brasileira. Apesar disso, continuamos sub-representadas nos espaços de poder. Nossa maioria numérica não se traduz automaticamente em poder de decisão, e as desigualdades de gênero seguem presentes nas instituições, no mercado de trabalho e na divisão das responsabilidades domésticas e de cuidado.
É preciso lembrar que o direito ao voto feminino é uma conquista histórica. Durante muito tempo, mulheres foram excluídas das decisões políticas sob o argumento de que seu lugar era o espaço privado, a casa, a família. A participação política feminina foi resultado de mobilização, enfrentamento e reivindicação de cidadania. Não significa que cada mulher tenha a obrigação de votar de determinada maneira, mas nos lembra que o direito de participar não surgiu espontaneamente: foi conquistado.
E a política continua atravessando nossas vidas, mesmo quando tentamos nos afastar dela. É na disputa política que se decidem os recursos destinados às políticas de enfrentamento à violência contra a mulher, à saúde, à educação, à creche pública e à assistência social. São decisões que afetam especialmente mulheres negras, trabalhadoras, mães solo, mães atípicas e aquelas que dependem dos serviços públicos para garantir condições mínimas de sobrevivência.
Quando uma mulher precisa escolher entre trabalhar e cuidar dos filhos porque não tem acesso à creche, existe uma dimensão política nessa realidade. Quando uma vítima de violência não encontra acolhimento e proteção, existe uma dimensão política nessa ausência. Quando mulheres recebem menos, enfrentam barreiras para ocupar cargos de liderança ou acumulam jornadas de trabalho remunerado e não remunerado, também estamos diante de questões que exigem respostas coletivas.
Por isso, a abstenção merece ser discutida sem julgamentos simplistas, mas também sem romantizar o afastamento das urnas como se ele fosse, necessariamente, um gesto de resistência.
Eu entendo quem está cansada. Especialmente as mulheres que precisam trabalhar, cuidar, sustentar suas casas e ainda encontrar tempo para acompanhar uma política que nem sempre responde às suas necessidades. O cansaço não é sinal de ignorância ou indiferença. Muitas vezes, é consequência de uma vida marcada por responsabilidades demais e reconhecimento de menos.
Mas é justamente por compreender esse cansaço que precisamos conversar sobre o risco de transformar a desistência em única resposta possível. A participação política não se resume ao voto, mas o voto continua sendo uma das ferramentas disponíveis para disputar decisões que afetam nossas vidas.
A política não deixa de decidir sobre nós quando deixamos de participar dela. A pergunta é se podemos abrir mão de mais um espaço de decisão quando, historicamente, precisamos lutar tanto para conquistá-lo.
Precisamos cobrar, questionar, fiscalizar e construir alternativas. E precisamos reconhecer que o direito de participar também carrega a possibilidade de disputar uma sociedade menos desigual. Porque, para nós, mulheres, a política nunca foi algo distante. Ela está na segurança com que voltamos para casa, no salário que recebemos, no acesso à saúde, no tempo que temos para nós mesmas e nas condições que encontramos para viver com autonomia.
Desistir pode parecer uma escolha individual. Mas as consequências das decisões políticas são coletivas e continuam chegando, sobretudo, à vida de quem já enfrenta mais barreiras para ter seus direitos garantidos.
Por isso, meu convite é para que você não abra mão do seu direito de participar. No segundo turno, vote com consciência, informação e a certeza de que, mesmo diante do cansaço, a nossa voz merece continuar fazendo parte das decisões que afetam nossas vidas.