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Dia da votação das eleições

A democracia que só vale quando o seu candidato vence

Existe uma contradição que diz muito sobre o Brasil e que fica especialmente evidente depois de uma eleição: tem gente que passa meses falando em democracia, liberdade, respeito e futuro do país, mas basta o resultado das urnas contrariar suas expectativas para que todo esse discurso desmorone.

Se você abriu as redes sociais hoje, sinto muito, tem sido um terror. Empresários dizendo que vão demitir funcionários que votaram diferente, pessoas afirmando que gente de esquerda não tem caráter, que é tudo maconheiro, vagabundo, gente que não gosta de trabalhar. Nordestinos sendo atacados por causa do resultado das urnas.

E tudo isso em nome do futuro do Brasil.

Quando o resultado não agrada, a máscara cai. O discurso sobre liberdade dá lugar à ameaça, o respeito vira deboche e a divergência política se transforma em justificativa para humilhar quem pensa diferente.

Quando um empresário ameaça tirar o sustento de alguém porque essa pessoa votou no candidato errado, estamos falando de poder. O empresário tem o direito de defender suas convicções políticas. O trabalhador também. Nenhum deles precisa concordar com o outro, mas o salário de alguém não pode ser usado como instrumento de intimidação.

Que liberdade é essa que só existe para quem pode se dar ao luxo de discordar?

Outro ponto que chama a atenção é o ataque aos nordestinos. O Nordeste é maravilhoso para passar férias, aproveitar as praias, conhecer a gastronomia e celebrar a cultura. Mas, quando seus habitantes votam de uma maneira que desagrada a determinados eleitores, o encantamento desaparece. A origem regional vira insulto, e o voto passa a ser tratado como prova de ignorância.

Como se existisse alguma região que votasse 100% certo. Como se milhões de pessoas pudessem ter as mesmas necessidades e opiniões. Como se o direito de escolher seus representantes dependesse da aprovação de quem perdeu.

Esse preconceito tem raízes históricas e pode se cruzar com desigualdades raciais e de classe. A intelectual feminista Lélia Gonzalez nos ajuda a compreender como essas hierarquias são construídas e naturalizadas no Brasil, definindo quem é tratado como superior e quem é colocado em posição de inferioridade.

A questão, portanto, vai além da divergência política. É preciso perguntar por que algumas pessoas se sentem autorizadas a desqualificar a inteligência e o caráter de populações inteiras quando suas escolhas eleitorais as desagradam.

E aqui entra uma reflexão importante: será que estamos falando apenas de preocupação com o futuro do país ou, em determinados casos, da dificuldade de aceitar que pessoas consideradas socialmente inferiores tenham o mesmo poder de decisão?

Não se trata de dizer que toda indignação com o resultado eleitoral é preconceito. É legítimo discordar, criticar um governo e temer suas consequências. Mas nada disso justifica ameaçar trabalhadores ou atacar pessoas por sua origem.

A escritora feminista Bell Hooks dedicou parte de sua obra a discutir as estruturas de dominação que naturalizam a inferiorização de determinados grupos. Essa perspectiva nos ajuda a perceber que o problema não está em discordar, mas em transformar a discordância em autorização para humilhar e desumanizar o outro.

A democracia também se revela na derrota. É fácil defender a liberdade quando ela favorece nossas escolhas. Difícil é respeitá-la quando milhões de pessoas decidem diferente de nós.

No fim, fica a pergunta: quando alguém diz que está lutando pelo futuro do Brasil, mas ameaça trabalhadores, ataca nordestinos e despreza quem pensa diferente, que futuro está realmente tentando defender?

Porque, quando a democracia só vale se vencer o candidato que você escolheu, talvez não seja a democracia que você esteja defendendo. Talvez seja apenas o direito de ter sempre a última palavra.

Foto de Raíssa França

Raíssa França

Cofundadora do Eufêmea, Jornalista formada pela UNIT Alagoas e pós-graduanda em Direitos Humanos, Gênero e Sexualidade. Em 2023, venceu o Troféu Mulher Imprensa na categoria Nordeste e o prêmio Sebrae Mulher de Negócios em Alagoas.
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