Colabore com o Eufemea
Advertisement

Quem disse que toda mulher nasce sabendo ser mãe?

Existe uma ideia bastante difundida de que toda mulher, quando se torna mãe, sabe naturalmente o que fazer. Vendem a ideia do instinto materno, como se o nascimento de um filho viesse acompanhado de uma espécie de manual interno, capaz de ensinar, de uma hora para outra, como cuidar, acolher, compreender o choro e responder às necessidades de uma criança. Mas quem já viveu a maternidade sabe que não é bem assim.

Uma mulher pode ter desejado e se planejado muito para ser mãe e, ainda assim, sentir-se perdida diante da maternidade e dos desafios de criar outro ser humano. E nada disso significa que lhe falte amor ou que ela não tenha nascido para ser mãe. Significa apenas que está aprendendo e que o não saber faz parte da construção de qualquer maternagem.

Apesar disso, quando uma mulher encontra dificuldades na maternidade, nem sempre consegue reconhecê-las como parte de um processo. Se ouvimos desde pequenas que mulher tem jeito para cuidar, que mãe sabe o que fazer e que o amor materno é capaz de tudo, como admitir que não sabemos? Como dizer que estamos cansadas, inseguras ou que precisamos de ajuda?

O mito do instinto materno pesa justamente porque transforma o cuidado em uma habilidade que se espera que a mulher tenha desde sempre. E, quando ela não corresponde a essa expectativa, pode acabar entendendo suas dificuldades como uma falha pessoal.

Essa ideia também nos faz esquecer que a maternidade não acontece da mesma maneira para todas as mulheres. A história de vida, as relações que construímos, as condições em que nos tornamos mães e a presença ou ausência de uma rede de apoio fazem diferença. Não existe uma experiência materna universal, muito menos uma fórmula capaz de preparar alguém para tudo o que encontrará ao cuidar de uma criança.

É verdade que existem aspectos biológicos envolvidos na maternidade. Mas eles não significam que toda mulher esteja automaticamente preparada para cuidar, nem que o amor seja suficiente para ensinar tudo aquilo que essa experiência exige.

Há, ainda, uma questão que merece atenção: muitas meninas crescem sendo incentivadas a cuidar dos outros, a se responsabilizar e a colocar as necessidades alheias em primeiro lugar. Essa aprendizagem pode fazer com que algumas mulheres cheguem à maternidade já familiarizadas com tarefas de cuidado. Mas saber cuidar de alguém não é o mesmo que estar preparada para tudo o que envolve ser mãe.

A maternidade exige tempo, disponibilidade, apoio e condições concretas para que esse cuidado aconteça. Ainda assim, muitas mulheres são cobradas como se dar conta de tudo fosse uma capacidade natural, que não dependesse de ninguém além delas mesmas.

Talvez seja por isso que tantas mães sintam vergonha de pedir ajuda ou dificuldade de falar sobre aquilo que não sabem. Quando a maternidade é tratada como um dom, admitir que estamos aprendendo pode parecer uma confissão de incompetência.

Mas ninguém nasce sabendo construir uma relação com outro ser humano. A maternidade também se constrói no cotidiano, nas tentativas, nos erros, nas descobertas e nas mudanças que acontecem ao longo do caminho.

É importante lembrarmos que, antes de ser mãe, existe uma mulher. Uma mulher que também tem uma história, limites, inseguranças e necessidades. E que, assim como seu filho, está aprendendo a viver essa relação.

Com carinho,

Raquel.

Foto de Raquel Pedrosa

Raquel Pedrosa

Psicóloga clínica formada pela UFAL (CRP 15/3938). Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza. Professora universitária no Centro Universitário de Maceió.
plugins premium WordPress