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Como vão ficar a saúde e a educação no novo normal? Especialistas respondem

Reportagem por Niviane Rodrigues e Raíssa França

Foto principal: Enfermeira e Doutora em Saúde, Aracele Tenório

Muito tem se falado do novo normal. Na primeira parte da reportagem do Eufemea publicada ontem (22), trouxemos as análises de uma economista, uma cientista política e uma psicóloga. Mas hoje queremos falar sobre educação e saúde. A educação foi afetada em todo mundo: paralisou atividades, fez com que professores e estudantes precisassem de uma uma nova rotina. Por outro lado, a saúde não parou. Será que pós-pandemia os profissionais da saúde serão os mesmos?

Como será o novo normal daqui por diante? Hoje trazemos a análise da professora do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Lídia Ramires,  da Consuelo Correia, presidenta do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Alagoas (Sinteal) e da enfermeira e doutora em Saúde Aracele Tenório. 

Educação à distância é uma realidade

A professora Lídia Ramires disse que “do ponto de vista acadêmico, esse tempo que foi passado pode, sim, e será recuperado, no sentido de poder dar esse conteúdo a partir da retomada das atividades da forma que for definida”.

“Isso é uma constante para a gente na realidade de universidades públicas, por exemplo, quando há paralisação por conta de uma greve que se estenda. Às vezes as pessoas estranham porque o calendário acadêmico não é o mesmo do calendário gregoriano. Então tem esse atraso, entre aspas”, comentou Lídia.

Lídia Ramires, professora da UFAL

 “As aulas remotas não foram adotadas pela Ufal, mas nós sabemos, principalmente em relação ao ensino básico, fundamental, e de forma muito mais forte em colégios particulares, que as aulas remotas estão sendo realizadas, inclusive em cursinhos, aula de reforço, casas de cultura, de idiomas. Mas no caso da Ufal as aulas estão suspensas, por decisão do Conselho Universitário, que é a instância superior da Universidade”, explicou Lídia.

Segundo ela, a educação à distância é um realidade. “Vamos pensar que a gente tem conteúdo em aulas remotas desde antes da TV, em rádio já existiam rádio-aulas, o telecurso segundo grau. Há uma quantidade de material na internet para aulas remotas. Essas aulas funcionam, mas não como as aulas presenciais. É uma sistemática diferenciada e principalmente demanda elaboração prévia desse material. Você não pode substituir uma aula presencial por uma aula remota simplesmente fazendo o que seria um aula presencial em frente a uma câmera. Acho que aí está o principal equívoco”.

Lídia disse que acredita na educação como forma revolucionária. “E um situação dessa como a pandemia, está agravando na verdade as diferenças sociais. A gente vê que muito mais do que o acesso à saúde, essa diferença implica necessariamente em acessos outros que vão se refletir na educação. Alguém que não tem condições mínimas, elas se estendem também para o acesso à informação e à educação”.

A professora também explicou que é papel dos profissionais de educação pensarem, conversarem e apresentarem propostas. “É claro que nesse momento nós profissionais da educação nos dividimos em questões básicas, específicas de sobrevivência e luta por saúde física e mental também”.

Lídia disse que fica incomodada, muitas vezes, com as críticas a esse modelo que está sendo implantado forçosamente de aulas remotas em que professoras e professores não têm preparação, equipamentos e condições básicas. “Porque se a sua criança está na frente do computador, do celular, com quem estão as crianças filhos e filhas dessas professoras e professores. A gente está vivendo momento de extremo questionamento”.

Para ela, o desafio mais uma vez é se reinventar. “É uma classe profissional das mais importantes na sustentação de uma sociedade e com menos reconhecimento e menos investimento. E a gente está indo para três meses de isolamento e vendo que isso continua”.

É preciso que tenha garantias para os professores

Consuelo Correia, do Sinteal, disse que “a pandemia aprofunda uma desatenção do estado nessas áreas, nos últimos anos, com a precarização profunda das relações de trabalho e os cortes orçamentários impostos pela Emenda 95 da Constituição Federal em certa medida prejudicaram a oferta de políticas públicas, o que expõe ainda mais a população neste momento de pandemia”.

Maria Consuelo

“No que concerne às discussões relacionadas ao retorno presencial das atividades, o movimento sindical entende que a preocupação número um é a saúde de trabalhadores e usuários dos serviços públicos. No calendário de volta das atividades posto pelo governo estadual, a educação é a última atividade quanto ao retorno presencial, como deve ser, com previsão do retorno às aulas no início de agosto. Nós entendemos que este retorno só poderá acontecer se houver as garantias quanto às condições sanitárias, com controle da pandemia”, justificou.

A presidenta do Sinteal também reforçou que a educação pública é mais necessária do que nunca.

“A crise econômica que acompanha a pandemia aumenta a demanda social pela escola pública. É necessário que se compreenda essa necessidade como responsabilidade, como dever do poder público quanto à utilização dos aparelhos sociais para emancipar vidas e pela reconquista dos avanços civilizatórios necessários para a plena superação dos efeitos da crise. Então, é preciso que a sociedade dispute a retomada após a pandemia no intuito de que o Estado cumpra o seu papel constitucional de garantir ao conjunto da população o pleno acesso aos direitos”, destacou Consuelo.

Profissionais da saúde não serão mais os mesmos

A doutora em Saúde Aracele Tenório acredita que com o “novo normal”, os próprios profissionais da saúde terão mudanças de atitudes importantes. 

“Os cuidados de proteção individual na área da assistência aumentarão de forma considerável e a visão dos gestores da saúde também passarão por uma revisada nos conceitos de segurança profissional”, disse. Com isso, eles vão “finalmente entender que quando o profissional exigir equipamentos de proteção individual, ele não está fazendo isso para dificultar assistência ao paciente e sim exigindo algo que lhe é de direito”.

Para ela, a covid mostrou aos profissionais que a contaminação pode acontecer com qualquer um. “Era comum na área de saúde a maioria dos profissionais exitarem usar alguns equipamentos de proteção (como óculos ou face shield) por acharem proteção exagerada e que dificultava boa visibilidade para realização de procedimentos”.

Entretanto, com a covid-19 “com certeza esse olhar mudou e os profissionais passaram a adaptar- se na rotina do plantão com todos os EPIs prestando atenção adequada na paramentação e desparamentação”.

A doutora enfatizou que a população vai ter uma mudança de comportamento e que vai reforçar o hábito de higiene das mãos, etiqueta de tosse e espirro serão mais frequentes também. 

“O uso de máscaras será mais comum a todos. Ninguém vai ficar com “vergonha” de se expor num local público usando máscara no rosto. Tal hábito se tornará comum entre as pessoas mais cuidadosas, talvez mesmo em anos após a pandemia”, afirmou Aracele.

Ela também acredita que o uso de máscara entre as pessoas com sintomas gripais ou de resfriados também fará parte do novo normal. “As pessoas mais conscientes não terão mais o descuido de ao apresentar sintomas gripais, de entrar numa sala fechada com ar condicionado, sem máscara, tocando em objetos comuns sem antes higienizar as mãos”.

“Se por um lado vimos pessoas se isolarem para proteger o coletivo, salvar vidas, preservar o sistema de saúde e evitar colapso, por outro lado vimos pessoas negarem a situação, incentivando a quebra dos cuidados e a deturpação de fatos óbvios de âmbito mundial e isso é bem grave. Muitos desses foram responsáveis diretos ou indiretos por mortes por Covid-19”, finalizou a doutora.

Raíssa França

Por Raíssa França

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