Alagoana lança livro feito à mão ‘Mário (& Rosina) – Uma Novela’: um convite a conhecer o que desempondera o feminino

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Livro é uma obra de arte! Agora, imagine um livro todo feito à mão! “Mário (& Rosina) – Uma Novela” é uma dessas obras de encher os olhos, pelo texto e imagens, tudo produzido  pela artista, escritora e taróloga alagoana Ana Karina Luna, com o cuidado que os amantes da boa leitura merecem.  O livro, no delicado formato “cartonero”, feito reutilizando o papelão de caixas usadas (o “cartón”) para confeccionar as capas, é da editora Lua Negra Cartonera e a ilustração também é de Ana Karina. Ela conversou com o Eufemea e convida vocês a mergulharem na delicada e encantadora ‘viagem’ de seu livro. 

“A ideia de fazer um livro artesanal surgiu em 2017. Eu já tinha recebido três recusas para publicar meu primeiro livro. A primeira delas foi da Imprensa Oficial Graciliano Ramos, para onde eu tinha mandado meu manuscrito num dos seus editais, em 2016”, conta Ana Karina. 

Ela diz que “a instituição tinha vários editais anuais e envolvia várias categorias: crianças (coleção “Coco de Roda”), poesia, contos, romance, etc. Eles escolhiam 12 a 15 autores para publicar durante o ano. Fiquei surpresa quando saiu a lista com o resultado: 14 homens e uma mulher. Minha intuição apitou. Onde estão as mulheres? Quantas mulheres inscreveram seus trabalhos? Quase nenhuma? Qualquer coisa não cheirava bem; fiquei decepcionada”. 

Passado esse momento, Ana Karina conta que um dia estava no lançamento do livro de um amigo escritor “e uma conhecida (Lisley Nogueira, escritora/artista visual) me perguntou do meu livro, se eu não ia publicar. Relatei para ela o acontecido com a Imprensa Graciliano Ramos e como isso me desanimou. Ela perguntou se eu conhecia a Mariposa Cartonera, como uma possibilidade. Só pelo nome já gostei”. 

Ela então enviou seu manuscrito, mas diz que infelizmente eles já tinham fechado a chamada para autores.  

“Decidi fazer um protótipo do livro. Além de artista plástica, trago na minha bagagem a profissão de designer gráfica (por mais  de 20  anos) e de arquiteta (por 4 anos); sou boa com atividades manuais, então já confeccionei origamis, cartões, papel reciclado, já costurei cortina pra minha casa, e até um vestido pra mim. E ainda fui dona de uma oficina tipográfica (em Seattle, a Miss Cline Press, onde eu prensava poemas e gravuras à mão em prensas centenárias, em papel de algodão). Foi assim que criei a Lua Negra Cartonera, uma editora cartonera”. 

O que é um livro cartonero? 

 Livros cartoneros são feitos reutilizando o papelão de caixas usadas (o “cartón”) para confeccionar as capas. O Cartonero é um movimento Latino-americano iniciado por catadores de lixo na Argentina. Editoras cartoneras fucionam em sistema de mutirão, com voluntários, no melhor do estilo matrístico: cooperação, não-competição, e tudo feito à mão; apenas para o miolo são usadas máquinas de impressão (um dos presentes do patriarcado: a tipografia). São vendidos a preços justos e recuperam a autonomia do escritor. E, assim, eles são ‘disruptores’ da ordem normal de publicação e que tende a dar mais oportunidades a escritores homens. Estes livros são feitos, inteiramente, à mão, por uma mulher, em sua casa-atelier-templo. 

E a editora Lua Negra Cartonera, como surgiu? 

Lua Negra surgiu como a própria Lilith se fez: de recusas. A Lua Negra, que é a Lua Nova, que é a Lilith na astrologia, se guia pelo escuro para renascer em outros caminhos. Nos campos, é na Lua Negra que se planta a semente, a qual vai, sozinha, quebrar a própria casca — seguindo dentro da escuridão da terra, uma hora, ela acha a superfície. A Lua Negra Cartonera nasce e se põe em Maceió — acha caminhos, abre canais, e segue parindo seus livros à mão. 

Força feminina

O que você espera transmitir aos leitores e em especial às mulheres?  

 O que eu diria às mulheres é: nós não somos o que pensamos que somos. Ninguém é, mas as mulheres, em especial, foram “construídas”, como colocou a Simone de Beauvoir, e ficaram ainda mais longe do “chão”, da terra. Meus livros, meus escritos, meus poemas têm por tema falar de um feminino que não é o do feminismo. Eu chamo de “feminismo às avessas”.  

Na sociedade, ficou combinado que tudo o que é do feminino não presta, é pisoteado, descartado, evitado. Mas há uma força que é do feminino, e ele tem a ver com a força da vulnerabilidade, a força do buraco, do caos, do aguardar e isso não está só para o gênero mulher, está para todos. Existe em todos. Meu trabalho é um convite a limpar esse feminino, a conhecê-lo, pois isso ainda não se fez muito bem dentro do feminismo. E só assim podemos redescobrir o seu valor.   

Emponderar-se mesmo não é apenas ter um emprego, um carro, saber dirigir, poder votar. Isso foi necessário, é importante, mas não é o suficiente. Porque o poder mesmo vem de saber voltar para si mesma/o. Ou seja, conseguir conhecer-se, saber-se, quem sou eu, de fato. E esse é um poder que depois que se instala não se perde nunca mais. E melhor: é pacífico, acaba a guerra (inclusive a dos sexos). Mulheres, conheçam-se, cresçam emocionalmente para poderem crescer em outras áreas, pois se não for assim, serão sempre ganhos temporários e superficiais, e não reais. E disso… brotará tudo o mais. 

Pandemia e valores esquecidos 

O que a poesia representa para você e como você a expressa no livro?  

Ótima pergunta, obrigada por fazê-la. Sim, na minha opinião, a poesia é inerente, está em tudo, o tempo todo. Adélia Prado, a mais anciã das nossas poetas no Brasil diz o seguinte: “De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo.”  

 Ora, a poesia sempre está, mas o bonito da poesia é que ela não age sozinha, ela exige da gente. Ela nos exige ativos. Estar passivo não funciona tão bem com a poesia. É por isso que ela é algo tão especial. Nos quer vivos. Nisso ela se revela. E quando digo poesia não só falo em poemas, mas a poesia que está em tudo: prosa, filmes, música, ficção, um passeio na praia, lavando uma roupa, até numa briga.   

Karina, que além de escritora é taróloga, fala também sobre a pandemia: “Alguns valores esquecidos se recolocaram”

Esta pandemia que vivemos também revela coisas grandes, ricas e poderosas para as almas que a olhem com abertura. Ouvi muita gente dizer que esse ano foi tão ruim quanto bom. Não é curioso? Isso é até meio poético. Ou seja, em meio a tantas coisas ruins acontecendo, várias coisas boas se desenterraram como que por milagre (ou mistério) e puderam ser vistas. Tantos comportamentos que já mudaram. Alguns valores esquecidos se recolocaram: amor, ajuda, família, compaixão, amizade, arte, o indivíduo, a casa.  Agora… não estavam já lá essas coisas boas? Sim. Tudo está o tempo todo. Quem vê ou não, somos nós. Porque o difícil, a dor, a morte, a solidão são profundos.   

SERVIÇO: 

MÁRIO (& ROSINA) 

É uma observação sobre o comportamento dos homens em relação às mulheres.

Uma Novela 
Ana Karina Luna 
Lua Negra Cartonera, 2020 
152 páginas 
Edição limitada: 300 exemplares 
 R$50,00 
(frete grátis para todo Brasil 
entrega: 6 – 9 dias úteis) 
Contate-me para compra via PIX ou pessoalmente. 

À venda na www.luanegracartonera.com/mariorosina.html 

FEITO À MÃO 

A capa é feita de caixas de papelão recicladas. A autora, Ana Karina, escolhe, coleta, desmembra e corta as caixas à mão. Os livros são costurados um a um. Depois as capas são ilustradas, também manualmente. Cada livro vem numerado, portanto, cada um é um original. Toda a diagramação é feita pela autora assim como as geometrias que se encontram em algumas páginas do livro, e que são de uma beleza delicada. 

RESENHA 

“Aparentemente despretensioso, Mário (& Rosina) resultou numa narrativa comovente, no melhor sentido da expressão; que comove pela aparente simplicidade com que fala da condição humana, com que nos faz rir do desencontro amoroso, sem pieguice. E o melhor: numa linguagem bem autoral, simples e ao mesmo bastante criativa, sem medo do novo. Um ponto que me chamou a atenção: um erotismo explícito em alguns momentos, implícito em outros, mas sempre presente. Um erotismo mesclado com simplicidade de linguagem, descontração e poesia, a poesia que pode estar nas coisas e situações mais inesperadas, como, no caso de Mário e Rosina, no mundo da mecânica e no mundo da cozinha.” 

Maria Heloisa M. de Moraes, 
Doutora, professora de literatura