Vítima de gordofobia, estudante de psicologia diz que já rezou para ter câncer e emagrecer: “O que a sociedade faz é desumano”

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Foto: Filipe Menegoy

Ela chegou a rezar para ter anorexia e até um câncer porque imaginava que só assim conseguiria emagrecer. Vítima de gordofobia, a estudante de Psicologia e advogada Vanessa Agra conta que desde criança sofre com a gordofobia, o preconceito com as pessoas em razão do seu corpo estar acima dos padrões considerados aceitáveis pela sociedade. Situação que por pouco não a levou de fato a uma doença ou até a morte. 

“Até tomar um susto, alguns anos atrás, quando surgiu a possibilidade de eu realmente estar com câncer. Eu chorei tanto por entender que eu rezei, desejei e almejei tanto uma doença tão séria, que me levaria a óbito. O que a sociedade faz conosco é desumano”, diz Vanessa. 

Na consulta com um médico, veio a agressão ainda maior. “Eu fui no hospital com medo de estar com câncer. O que eu ouvi de um médico da minha família foi: ‘você precisa parar com essa historinha de se aceitar e emagrecer! Um médico e familiar! Eu estava num momento super fragilizada, e ouvi isso. Naquele dia, foi difícil sabe? Tem dias que são mais difíceis que outros. Mas a gente vai aprendendo todos os dias a lidar”, lembra Vanessa. 

Mágoa e dor 

O preconceito sempre a acompanhou, desde a infância. “Já sofri preconceito devido ao meu corpo, desde pequena, em todos as situações que se possa imaginar. Na escola, na família, com amigos, no ônibus, no médico, na rua… a lista continua! E o preconceito vem camuflado das mais diversas formas, como “preocupação com a saúde” (mesmo que eu esteja perfeitamente saudável!), como “brincadeira”, etc”. 

Quando era mais nova e o preconceito vinha de pessoas desconhecidas, de modo geral, Vanessa relata que não costumava ligar, “mas quando vinha de pessoas próximas, isso doía, magoava e destruía profundamente de maneira física e psicológica, ela diz”. 

“Desenvolvi distúrbios alimentares como bulimia, e compulsão alimentar, além de ter chegado ao ponto de rezar chorando e pedindo todas as noites para ter doenças seríssimas, porque eu acreditava que só assim, eu emagreceria”. 

Não foram poucas as vezes que ouviu frases que marcaram sua vida e a levaram a adoecer.

“Uma frase que me marcou muito, vinda de um familiar foi: “Eu não entendo como alguém se permite chegar a esse ponto, não tem espelho em casa para se olhar e ver que está enorme assim?!” Lembro que esse dia tive uma das minhas maiores crises de bulimia da minha vida”. 

Um outro momento também muito marcante, Vanessa conta que ocorreu quando ela buscava se aceitar.

“Muitos anos depois, com minha autoestima lá em cima, depois de um longo processo de aceitação de mim mesma, e de amor próprio, fui capaz de responder a um novo comentário dessa mesma pessoa, de maneira que a fez nunca mais voltar a fazer comentários sobre meu corpo. Tive uma sensação de eletricidade correndo pelo meu corpo, sensação de libertação, e de certeza que jamais permitiria que alguém me fizesse sentir inferior novamente”. 

Não estar no padrão de corpo definido pela sociedade  como “o ideal” te assusta, te preocupa? 

Já me preocupou e já me tirou muitas noites de sono e idas à praia! Hoje em dia, não mais! Hoje em dia me questiono como eu consegui passar mais de um ano sem ir numa praia por vergonha do meu corpo! 

De que forma as mulheres podem desconstruir esse preconceito?  

Não existe fórmula mágica. Assim como outros tipos de preconceito, como o racial, social, etc., ele não vai sumir do dia para a noite, pois ele é estrutural, sistêmico, e está dentro de todos nós. 

Eu acho que começar passando pelo processo de auto desconstrução, autoconhecimento, amor próprio, empoderamento de si mesma, já é um ótimo começo. Sabe aquela história de “se quiser mudar o mundo, comece arrumando seu quarto?” 

E em relação aos demais, não baixar a cabeça, não aceitar certo tipo de piada, ou comentários, e expor para a pessoa que aquilo é preconceituoso e por que, promovendo a reflexão dessas pessoas. 

GRUPO SUA LINDA 

Faço parte do Grupo Sua Linda, que é focado no empoderamento, autoconhecimento, e amor próprio da mulher de maneira geral. 

Especificamente sobre gordofobia sigo vários influenciadores no Instagram que falam sobre o tema, e estudo bastante sobre. A quem me pergunta, sempre recomendo a leitura do livro “O Mito da Beleza” de Naomi Wolf, ele foi um divisor de águas na minha vida, me ajudou a pensar criticamente e compreender melhor porque pensamos como pensamos, e o resultado disso foi a possibilidade de me libertar dessas amarras, melhorar dos meus problemas alimentares, e cuidar melhor de mim e do meu corpo por amá-lo e respeitá-lo como ele é, e não por odiá-lo e desejar que ele seja igual ao de um modelo inalcançável de perfeição, pois ele já é perfeito do jeito que ele é. 

“Hoje em dia me questiono como eu consegui passar mais de um ano sem ir numa praia por vergonha do meu corpo”, diz Vanessa. Foto: acervo pessoal

GORDOFOBIA X PRESSÃO ESTÉTICA 

É muito comum que todas as pessoas, em especial as mulheres, se sintam inseguras com algo em relação ao seu corpo. O tamanho do seu seio, o tamanho do nariz, desejar ter a boca carnuda como a da Angelina Jolie, e essas coisas decorrem da pressão estética que todos sofremos para chegar o mais próximo possível do padrão socialmente estabelecido do que seria o belo. 

A gordofobia vai além disso. A gordofobia é um tipo de preconceito que se diferencia e se agrava, na medida em que priva as pessoas de direitos humanos simples como o de ir e vir. 

Por exemplo, não passar na catraca de um ônibus, não caber no assento de um avião, fisicamente não entrar dentro de uma máquina para realizar exames médicos, é não ser escolhido para um emprego, mesmo sendo melhor qualificado, é desejar comprar uma roupa e não encontrar nada que te caiba, porque a sociedade invisibiliza sua existência e não produz nada para você. A gordofobia foi, e infelizmente ainda é, corroborado pelo discurso médico- científico que ao longo dos anos tem olhado para essas pessoas com um olhar patologizante.  

Por isso é tão importante falar sobre isso, para lentamente trazermos essa mudança na perspectiva, de que pessoas gordas são seres humanos dotados de sentimentos, vontades, potencialidades, inteligentes, capazes profissionalmente, desejáveis e tão saudáveis quanto quaisquer outro.