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Natasha Taques

Festas de fim de ano: quando os conflitos familiares deixam de ser desgaste e se tornam violência

Reuniões familiares de fim de ano, tradicionalmente associadas à celebração e à harmonia, podem se transformar em cenários de conflitos antigos, cobranças e sofrimento emocional.

À Eufêmea, a psicóloga Natasha Taques, explica que esse período funciona como um “amplificador emocional”, capaz de trazer à tona tensões que permanecem latentes ao longo do ano.

De acordo com a especialista, o aumento do tempo de convivência, somado às expectativas sociais de união perfeita e às memórias afetivas ativadas nessas datas, cria um ambiente propício para o reaparecimento de conflitos não resolvidos.

“Situações familiares costumam ativar esquemas emocionais antigos, como abandono, rejeição ou desvalorização. Eles não surgem no fim de ano, apenas reaparecem”, explica.

Sinais de alerta antes do encontro

Natasha Taques
Foto: Natasha Taques

Na prática clínica, alguns indícios costumam aparecer antes mesmo da reunião acontecer. Ansiedade intensa, pensamentos recorrentes de que “vai dar problema”, lembranças de conflitos passados e sensação de obrigação são sinais frequentes.

O corpo, segundo Natasha, costuma reagir antes da mente, com tensão muscular, irritabilidade, cansaço extremo ou vontade de evitar o encontro.

A preparação psicológica passa, principalmente, pelo ajuste de expectativas. “É importante reconhecer limites pessoais, planejar pausas e definir previamente até onde se está disposto a entrar em certas conversas”, orienta. Estudos indicam que expectativas mais realistas reduzem o desgaste emocional e a frustração.

Limites não são confrontos

Cobranças, comparações e conflitos antigos tendem a emergir com força nessas datas. Para lidar com isso, a psicóloga destaca que estabelecer limites saudáveis é um ato de autocuidado, e não de confronto.

“Limites eficazes são diretos, consistentes e não dependem da aprovação do outro. Frases simples, ditas com firmeza e sem justificativas excessivas, costumam funcionar melhor”, afirma.

Ela ressalta que o desconforto causado pela imposição de limites é comum, especialmente em famílias com papéis rígidos mantidos por anos. “Esse desconforto não significa que o limite está errado, mas que uma dinâmica antiga está sendo quebrada.”

O peso da expectativa de harmonia

A ideia de que o fim de ano deve ser, obrigatoriamente, harmonioso contribui para frustrações. Segundo a psicóloga, trata-se de um constructo social reforçado pela cultura e pela mídia. “Famílias reais são imperfeitas. Convivência saudável não é ausência de tensão, mas a capacidade de lidar com ela”, explica.

Ressignificar essas expectativas envolve trocar a busca por harmonia total por uma convivência com menos autoexigência e mais consciência emocional.

Quando o conflito passa a ser violência

Foto: Lavínia Cavalcanti

Se, do ponto de vista psicológico, os conflitos familiares de fim de ano estão ligados a esquemas emocionais antigos e dificuldades de autorregulação, há um momento em que essas tensões ultrapassam o campo do desgaste emocional e entram na esfera da violência, com implicações jurídicas.

É nesse limite que a orientação profissional deixa de ser apenas terapêutica e passa a exigir atenção legal, especialmente quando há repetição, agressividade ou violação de direitos fundamentais dentro do ambiente doméstico.

Segundo a advogada Lavínia Cavalcanti, especialista em Direito de Família, é fundamental diferenciar conflitos naturais da convivência de situações que configuram violência.

“Conflitos são normais. Ninguém passa pela vida sem vivê-los. Discussões familiares são naturais, a convivência desgasta. Mas a comunicação não pode ser agressiva nem desrespeitosa”, explica.

Ela destaca que frustrações, por si só, não caracterizam violência. “Nem todo conflito é violência, mas toda violência costuma começar com um conflito”, afirma. No âmbito doméstico, porém, a legislação reconhece diversas formas de violência, inclusive a psicológica.

Ofensas verbais, humilhações recorrentes, ameaças, controle excessivo ou chamar alguém de “louco”, por exemplo, já ultrapassam o limite do conflito saudável e podem representar o início de um ciclo abusivo.

“Qualquer violação de direitos humanos pode ser configurada como violência, como ofensas à honra, à imagem, à integridade física e à saúde”, reforça.

A advogada ressalta que discussões pontuais, ainda que desconfortáveis, não são consideradas violência doméstica. O alerta surge quando essas discussões se tornam frequentes, especialmente em datas comemorativas, e passam a envolver desrespeito, manipulação emocional ou intimidação.

“Se a pessoa já sente tensão antes de datas como o Natal, isso pode indicar que ela não está em um ambiente familiar saudável e, possivelmente, em uma situação de violência doméstica”, afirma.

Como agir diante de uma situação de violência

Do ponto de vista jurídico, a prioridade é a segurança. “O primeiro ponto é garantir sua integridade. Se necessário, chame a polícia. Se puder, registre áudios ou vídeos, mas nunca coloque sua vida em risco para isso. Afaste-se até a chegada da polícia”, orienta Lavínia.

Ela também recomenda buscar testemunhas, verificar a existência de câmeras no local e registrar provas, inclusive por meio de conversas no WhatsApp e da lavratura de uma ata notarial.

A situação se agrava juridicamente quando há crianças ou adolescentes envolvidos. De acordo com a advogada, o artigo 226 da Constituição Federal estabelece o dever do Estado, da família e da sociedade de proteger menores de idade.

“Quando crianças estão expostas a conflitos ou violências, o Conselho Tutelar pode ser acionado, e o Ministério Público atua na defesa dos interesses desses menores”, explica.

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