Por décadas, aprendemos a tratar o calendário como uma espécie de juiz simbólico da vida. Dezembro chega e, com ele, a expectativa silenciosa de encerramento, de balanço, de conclusão. Como se o tempo obedecesse ao relógio. Como se a vida aceitasse ser organizada em caixas bem delimitadas chamadas “ano que termina” e “ano que começa”.
Mas a experiência humana raramente se ajusta a essa lógica.
Há fins de ano que não pedem fechamento. Pedem cuidado.
Há histórias que não se concluem com fogos. Não se resolvem com listas de metas. Não se acomodam em promessas otimistas para o próximo janeiro. Existem processos que seguem abertos porque ainda estão vivos. E há dores que permanecem não por falta de esforço, mas porque amadurecem em um tempo próprio, mais lento e mais profundo do que o socialmente aceitável.
O discurso do fechamento de ciclos costuma vir acompanhado de outra exigência silenciosa: a da superação rápida. A ideia de que é preciso virar a página, deixar para trás, seguir em frente. Como se permanecer em contato com aquilo que ainda dói fosse sinal de fraqueza, e não de honestidade emocional.
Entretanto, a psicologia — e a própria observação da vida — ensinam o contrário.
Nem todo processo saudável termina com um ponto final. Muitos se transformam em vírgula. Outros seguem como parênteses abertos. Alguns, simplesmente, precisam ser respeitados em seu estado de incompletude.
Lutos não se encerram por decreto. Mudanças profundas não obedecem à contagem regressiva do réveillon. Reconstruções internas não se aceleram porque o mundo espera entusiasmo, gratidão e esperança em fotos bem iluminadas.
Há pessoas que chegam ao fim do ano diferentes do que começaram. Não melhores. Não piores. Apenas mais conscientes. Mais sensíveis. Mais cansadas também. Carregando aprendizados que não cabem em frases prontas, nem em retrospectivas organizadas.
Para essas pessoas, insistir no fechamento pode ser uma forma de violência simbólica. Uma tentativa de apagar aquilo que ainda precisa ser elaborado. Um convite à negação emocional disfarçado de positividade.
Talvez seja hora de ampliar o repertório com o qual olhamos para esse período do ano. Nem todo dezembro é um portal de recomeço. Alguns são travessias. Outros são pausas necessárias. Há fins de ano que pedem silêncio, recolhimento e menos explicações. Pedem gentileza consigo mesma e permissão para não saber exatamente como seguir.
Fechar ciclos pode ser saudável quando o processo está pronto. Quando há integração, sentido e elaboração. Mas forçar esse fechamento, apenas para corresponder a uma expectativa coletiva, costuma produzir mais culpa do que alívio.
Cuidar do que ainda está aberto também é maturidade emocional.
Talvez o gesto mais honesto neste fim de ano não seja prometer mudanças, nem declarar encerramentos. Talvez seja apenas reconhecer, com dignidade, aquilo que ainda vive dentro de nós. O que ainda pede tempo. O que ainda não encontrou palavras. O que ainda não acabou.
E tudo bem.
Porque nem todo fim é sobre terminar. Alguns são apenas sobre continuar, com mais consciência, mais respeito e menos pressa.
Sobre a colunista
Ana Paes é psicóloga clínica e especialista em Neuropsicologia, com foco em psicoterapia para adolescentes, adultos, casais e pessoas neurodivergentes, além de avaliações diagnósticas de alta precisão em saúde mental. Atua no mapeamento das funções cognitivas e emocionais, auxiliando pessoas a compreenderem a relação entre funcionamento cerebral e comportamento. Com um olhar técnico e humanizado, dedica-se a transformar dados clínicos em caminhos de autoconhecimento, autonomia e bem-estar.
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