Por décadas, os ciclos femininos foram tratados como tabu — silenciados na adolescência, medicalizados na vida adulta e invisibilizados na menopausa. Agora, o debate sobre corpo, autonomia e bem-estar ganha um novo capítulo: O Boticário anuncia uma pesquisa proprietária sobre os ciclos femininos e lança uma linha pensada para acompanhar quem menstrua em diferentes fases da vida.
Mais do que um movimento de mercado, a iniciativa toca em uma pauta histórica do feminismo: reconhecer que o corpo feminino é dinâmico, complexo e atravessado por transformações físicas, emocionais e sociais que exigem acolhimento, não silenciamento.
Escuta como ponto de partida
A pesquisa, realizada em 2024 com 1.200 mulheres de 14 a 65 anos das regiões Sudeste e Nordeste, foi conduzida em parceria com a Consultoria Eixo e o Centro de Pesquisa da Mulher, polo criado pelo Grupo Boticário para desenvolver estudos científicos sobre bem-estar feminino.
O levantamento mapeou as transformações que vão da menarca à menopausa, revelando um dado persistente: independentemente da idade, sintomas como cólica e tensão pré-menstrual seguem impactando rotina, autoestima e produtividade. Entre jovens de 16 a 24 anos, 69% relatam cólicas; entre 25 e 34, 63%; e entre 35 e 44, 55%. A TPM aparece de forma intensa em todas as faixas etárias ouvidas.
O estudo também evidencia que 53% apontam o inchaço como principal incômodo durante o ciclo; 49% relatam dores de cabeça; 48% irritabilidade ou choro; e 43% dores nas costas, pernas e pés. Ainda assim, 66% recorrem prioritariamente a medicamentos, enquanto práticas estruturadas de autocuidado aparecem de forma tímida.
Os dados expõem um cenário conhecido por muitas mulheres: o corpo fala, mas o suporte coletivo ainda é insuficiente.
Climatério, gravidez e puerpério: fases invisibilizadas
Ao ampliar o olhar para além da menstruação, a pesquisa ilumina fases historicamente negligenciadas. No Brasil, cerca de 29 milhões de pessoas estão no climatério, segundo o IBGE, período que pode durar décadas e inclui pré-menopausa, menopausa e pós-menopausa.
Fogachos (52%), aumento abdominal (50%), ganho de peso (48%), alterações no sono e perda de libido (46%) estão entre os sintomas mais mencionados. Diferentemente do ciclo menstrual, nessa fase cresce a busca por práticas de bem-estar: 41% recorrem a exercícios físicos e 38% investem em alimentação mais saudável.
Na gravidez, dores nas costas (76%), fadiga (57%) e sensibilidade mamária (49%) lideram as queixas. Já no puerpério, o estudo aponta um cenário de sobrecarga e solidão: 61% relatam alteração no sono e 56% fadiga, com queda significativa na manutenção de rotinas de autocuidado.
O que os números revelam é mais do que sintomas — revelam a urgência de políticas de cuidado e de uma cultura que reconheça essas vivências como parte estrutural da experiência feminina.
Pele, cabelo e autoestima
As variações hormonais também impactam pele e cabelo. Durante a menstruação, 38% relatam surgimento de espinhas e acne; 34% das jovens entre 16 e 24 anos percebem mudanças na pele do corpo; 52% notam inchaço e 38% maior sensibilidade cutânea. Entre as que relatam alterações capilares, 63% mencionam queda de cabelo.
Em uma sociedade que impõe padrões rígidos de beleza, essas mudanças não são apenas biológicas — são também atravessadas por expectativas sociais.
Uma nova categoria de cuidado
A partir desse mapeamento nasce a linha Cuide-se Bem Cereja de Fases, certificada pela Mintel Group como a primeira linha brasileira de cosméticos corporais desenvolvida para o ciclo menstrual. A proposta inaugura uma nova categoria no cuidado com o corpo: produtos pensados para dialogar com as diferentes fases hormonais.
O desenvolvimento contou com a participação da Pantys, marca referência em soluções para o ciclo menstrual, e com apoio técnico-científico do Centro de Pesquisa da Mulher.
Com dez itens — que vão de sabonetes a hidratantes, óleo térmico para momentos de maior sensibilidade, adesivos secativos para acne e spray íntimo com fórmula hipoalergênica e prebiótica — a linha busca integrar conforto, funcionalidade e experiência sensorial. A fragrância, desenvolvida com apoio da neurociência, aposta em notas florientais frutais e fundo de chocolate branco para estimular sensação de acolhimento.
Mercado, ciência e política do cuidado
O movimento acompanha uma expansão global: segundo o SEBRAE, o mercado mundial de saúde da mulher pode atingir US$ 1,186 trilhão até 2027. Mas, para além dos números, há uma mudança simbólica em curso.
Quando uma marca coloca o ciclo menstrual no centro de sua estratégia, ela reconhece que o cuidado não pode ser episódico — precisa ser contínuo, informado por ciência e sustentado por escuta real.
Para uma revista feminista, a pergunta que permanece é: como transformar inovação em transformação estrutural? Se o mercado começa a enxergar o ciclo como território legítimo de investimento, o desafio agora é ampliar o debate para políticas públicas, educação menstrual e combate ao estigma.
O corpo feminino sempre foi político. Ao trazê-lo para o centro da pesquisa e do desenvolvimento de produtos, abre-se espaço para que o autocuidado deixe de ser apenas consumo — e se torne também reconhecimento, autonomia e direito.
*com Assessoria