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Antes de serem mulheres, foram meninas

Por Mariana Sampaio/Advogada

No Dia Internacional da Mulher, celebramos conquistas, trajetórias e resistências femininas. Mas há uma pergunta que raramente atravessa esse debate: em que momento começa a desigualdade que marca a vida das mulheres? Ela não começa na vida adulta. Não começa no mercado de trabalho. Não começa no casamento. Ela começa na infância.

Começa quando meninas aprendem, antes mesmo de entender o mundo, que precisam ser cuidadosas, educadas, agradáveis. Quando são elogiadas por ajudar, enquanto meninos são elogiados por explorar. Quando são responsabilizadas pelo cuidado, enquanto meninos são incentivados à autonomia.

Começa quando o corpo da menina passa a ser observado, avaliado, comentado. Quando ela aprende a cruzar as pernas, baixar a voz, medir a roupa. Quando descobre que crescer significa também se proteger. Quando a sociedade lhe impõe que precisa se diminuir para caber nos “lugares”.

Para muitas, começa ainda mais cedo e de forma mais brutal: na violência sexual infantil, que atinge majoritariamente meninas. Na sexualização precoce. Na gravidez que interrompe a infância. Na culpa que recai sobre quem foi violada. Na revitimização sofrida após violências já sofridas.

O mundo costuma tratar essas experiências como desvios individuais. Mas elas são parte de um mesmo fenômeno: a construção social da feminilidade começa sob desigualdade.

Antes de enfrentarem o machismo no trabalho, mulheres já o enfrentaram na infância. Antes de serem silenciadas em reuniões, foram ensinadas a não interromper. Antes de serem responsabilizadas pela família, foram treinadas no cuidado precoce. Antes de aprenderem a ter medo à noite, aprenderam a ter medo do próprio corpo em crescimento.

Por isso, não é possível falar de direitos das mulheres sem falar de meninas e adolescentes. A desigualdade de gênero não nasce pronta, ela é ensinada, repetida e normalizada desde cedo.

Quando o feminismo olha apenas para a mulher adulta, corre o risco de chegar tarde. Porque muitas das estruturas que limitam mulheres já foram inscritas quando elas ainda eram crianças.

Proteger meninas não é apenas proteger infâncias. É interromper a desigualdade antes que ela se torne destino.

Toda mulher carrega a menina que foi. E toda menina vive em um mundo que já espera dela aquilo que um dia cobrará da mulher que será.

Neste 8 de março, é preciso ampliar o foco: a luta das mulheres começa na proteção das meninas. Porque a desigualdade não nasce na vida adulta. Ela é cultivada na infância.

E nenhuma sociedade será verdadeiramente igualitária enquanto meninas crescerem aprendendo a caber em espaços menores que seus direitos.

Escutar meninas é transformar o futuro das mulheres.

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