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“Buscava respostas sozinha”: a vida de uma alagoana após o feminicídio da mãe

Por Larissa GomesJornalista

Aos 27 anos, a alagoana Rayana Carleandra Fernandes de Lima estuda Direito em busca de respostas que faltaram quando era criança. Em 2012, ela perdeu a mãe, Juliana Lima, assassinada aos 29 anos. Naquele momento, o Brasil ainda não nomeava esse tipo de crime como feminicídio, e a violência contra mulheres frequentemente era tratada como “crime passional”, com pouca resposta institucional.

“Buscava respostas sozinha na internet, tentando entender o que estava acontecendo. Eram muitos questionamentos e dúvidas. Hoje, estudando as leis, posso compreender melhor, mas na época foi um baque imenso”, recorda.

A morte de Juliana deixou Carleandra em um vazio de assistência que o Estado ainda luta para preencher. Para ela, a tragédia não terminou com o crime, mas se prolongou na experiência de crescer sem apoio psicológico ou orientação jurídica.

Na prática, o Estado transfere a responsabilidade do cuidado e da reconstrução emocional inteiramente para as famílias. Essa lacuna gera danos que a estudante define como irreparáveis, forçando órfãos a buscarem caminhos de superação por conta própria. Para Carleandra, preencher esse vazio significa resgatar quem foi Juliana antes de se tornar uma estatística.

Falar da mãe é evocar uma presença que não passava despercebida. Entre os amigos e familiares em Maceió, a lembrança que resiste ao tempo é a de uma mulher de riso fácil e voz levemente rouca, cujo charme e vaidade — sempre acompanhados de óculos escuros, maquiagem e saltos altos — marcavam qualquer ambiente. Juliana era o tipo de pessoa que não passava sem deixar amizades.

Carleandra e a mãe Juliana

Mãe precocemente, aos 15 anos, Juliana nunca permitiu que a maternidade fosse lida como um fardo. Pelo contrário, fez dela seu maior orgulho, apresentando Carleandra ao mundo como sua “menina moça”.

Esse elo também se estendia aos tatames, onde a mãe era a maior incentivadora e presença garantida na arquibancada, vibrando a cada treino ou campeonato de judô da filha. “Tenho certeza de que, se estivesse aqui hoje, seria minha maior torcedora em tudo na vida”, afirma a estudante.

Para além dos cuidados maternos, Juliana era uma mulher de espírito livre, praieira e dotada de um fôlego criativo. “Ela se virava nos trinta: fazia tererê no cabelo, tatuagem de henna na praia e transformava coisas simples em algo bonito”, conta Carleandra.

Essa coragem em assumir os riscos da vida e a fé que carregava com respeito são, hoje, os pilares que a filha tenta processar com o olhar da maturidade. Ela entende que a mãe, ao partir tão jovem, teve sua jornada de descobertas e sonhos bruscamente interrompida.

O feminicídio roubou de Juliana a chance de conhecer novas versões de si mesma, mas não conseguiu apagar a herança imaterial que deixou na filha. Hoje, quando Carleandra é reconhecida nas ruas pelo parentesco, a dor cede lugar ao reconhecimento.

“Até hoje as pessoas me reconhecem como a filha dela. E eu sinto um orgulho que não cabe no peito. Ser filha da Juliana sempre será uma das maiores honras da minha vida”. Para a futura advogada, ela própria é a memória viva de uma mulher que o silêncio da violência não foi capaz de apagar.

Alagoana Rayana Carleandra

A resistência de Carleandra contra o apagamento estatístico

Se a história de Juliana terminou em um domingo de 2012, o rastro de abandono que ela deixou é hoje o cotidiano de milhares de outras famílias. A jornada individual da estudante reflete um padrão alarmante identificado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios (LESFEM), da Universidade Estadual de Londrina. O levantamento revela que a escolha do dia não é coincidência: os domingos concentram o maior volume de casos, período em que o convívio forçado e o isolamento das vítimas costumam potencializar a violência.

Apenas em 2025, o Brasil registrou 1.653 crianças órfãs de mulheres vítimas de feminicídio. Os dados do LESFEM apontam que 69% das vítimas tinham filhos dependentes e que, em 30% dos casos, as crianças presenciaram o crime. Essa exposição ao trauma se soma ao registro de 101 mulheres assassinadas enquanto estavam grávidas no último ano.

O aumento de 34% nos casos de feminicídios consumados e tentados no país reforça a urgência de políticas estruturadas, a exemplo das adotadas na Alemanha e na Espanha. Nestes países, o suporte aos filhos vai além do auxílio financeiro e inclui acompanhamento psicológico contínuo e bolsas de estudo, medidas que ainda permanecem raras no cenário brasileiro.

O que diz a Lei sobre a proteção aos filhos das vítimas

No Brasil, a resposta institucional ao feminicídio ainda se concentra na punição do agressor, enquanto o suporte aos filhos e filhas que perderam as mães permanece limitado. A advogada Camila Ricci, professora e presidente da 9ª Turma do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PR, observa que a legislação avançou no campo penal sem, contudo, criar uma rede estruturada de proteção para essas crianças.

Ricci explica que, desde 2024, o feminicídio deixou de ser uma qualificadora do homicídio para se tornar um tipo penal autônomo. Com penas que variam de 20 a 40 anos de prisão, o crime passou a ter uma das punições mais altas do Código Penal. No entanto, a advogada pondera que a existência de uma legislação penal dura não significa que o problema esteja resolvido. Segundo ela, o rigor da lei atinge o criminoso mas não alcança o órfão, que segue desamparado por políticas públicas específicas.

Dentro do sistema judiciário, o único suporte desenhado para essas vítimas indiretas é o depoimento especial, previsto na Lei 13.431 de 2017. O modelo tenta evitar a revitimização em audiências, mas o amparo social fora dos tribunais ainda desvanece na prática.

Na análise de Camila Ricci, o país falha ao tratar o feminicídio apenas pelo viés criminal. A professora reforça que a ausência de uma rede voltada à saúde mental e ao acompanhamento social faz com que a reconstrução dessas vidas dependa quase exclusivamente da família. 

Tecnologia contra o isolamento

Para enfrentar o vácuo de informação que ainda isola milhares de famílias, iniciativas da sociedade civil buscam oferecer o suporte que o Estado muitas vezes não viabiliza com agilidade. A plataforma Toda Cidadã atua como uma ponte de conhecimento por meio da Maria Valente, um chatbot acessível via WhatsApp e web. “A Maria Valente é uma ferramenta de educação cidadã que fala sobre os direitos das mulheres e quais serviços elas conseguem acessar”.

Gabriela Toso, presidente do Toda Cidadã e mestre em economia política, explica que a ferramenta não realiza o acompanhamento jurídico ou psicológico direto, uma escolha proposital da equipe para garantir que o acolhimento humano seja priorizado em situações de fragilidade. No entanto, a inteligência do sistema é alimentada para reconhecer situações de risco e direcionar as usuárias imediatamente para locais específicos, como delegacias ou o Centro de Valorização da Vida (CVV).

A plataforma foca no que Toso chama de “democratização do conhecimento”. Além de orientar sobre violência doméstica, o sistema possui módulos voltados aos direitos da infância e juventude, oferecendo o suporte que faltou na infância de Carleandra ao indicar serviços como o NEDDIJ (Núcleo de Estudos e Defesa de Direitos da Infância e da Juventude) e defensorias públicas.

“A maior parte das mulheres em situação de violência também está em isolamento. Quando incluímos um módulo sobre mobilização e comunidade, isso também é uma forma de prevenção”.

*Para denúncias e orientações, os canais de apoio são fundamentais para romper o ciclo de violência. O 180 funciona como a Central de Atendimento à Mulher, oferecendo suporte e informações sobre direitos em todo o país. Para apoio emocional e prevenção do suicídio em momentos de crise, o 188 acessa o Centro de Valorização da Vida (CVV). Já a plataforma Toda Cidadã, por meio de sua assistente virtual, disponibiliza educação cidadã e orienta sobre o acesso a serviços especializados, como o NEDDIJ (Núcleo de Estudos e Defesa de Direitos da Infância e da Juventude), garantindo suporte jurídico e proteção aos direitos de crianças e jovens.

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