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Dentro das escolas, a violência contra meninas começa cedo e, muitas vezes, passa despercebida. Comentários sobre o corpo, apelidos ofensivos, exclusão e até toques sem consentimento são frequentemente tratados como “brincadeiras”, mas podem gerar impactos profundos e duradouros ao longo da vida.
Uma pesquisa nacional, “Livres para sonhar?”, da organização Serenas, mostra a dimensão do problema: sete em cada 10 professores afirmaram já ter presenciado alunas em situações de sexualização ou cantadas indesejadas. Além disso, 45% disseram já ter ouvido meninas serem chamadas de “vagabunda” ou “vadia”, e 10% afirmaram que esse tipo de xingamento acontece todos os dias.
A Eufêmea ouviu a pesquisadora de gênero Jadeanny Arruda, doutoranda em Comunicação pelo (PPGCOM/UFPE), jornalista e pesquisadora de violência de gênero, que explica que a violência contra meninas começa antes mesmo da escola e se manifesta de diversas formas ao longo da infância.
“Quando a gente pensa na violência que cruza o corpo das meninas, a gente entende que ela começa até antes da escola. Desde o chá revelação, quando há frustração por ser menina, já existe uma perspectiva de inferiorização”, afirma.

Segundo ela, o ambiente escolar, que deveria ser formador e seguro, também reproduz padrões culturais que colocam meninas em situação de vulnerabilidade. As agressões vão desde exclusões em atividades até comentários ofensivos, ridicularização do corpo, assédio e toques sem consentimento.
Essas situações, segundo Jade, são muitas vezes naturalizadas, o que dificulta a identificação e o enfrentamento.
“O limite da brincadeira é quando incomoda. Muitas vezes, abraços, comentários ou atitudes são vistos como brincadeira, mas, quando causam desconforto, já configuram uma forma de violência”, explica.
Exclusões e preconceitos também são formas de violência
A pesquisadora destaca que a violência contra meninas nem sempre é física. Ela também aparece em situações cotidianas, como impedir a participação em atividades ou reforçar estereótipos de comportamento.
“Se a menina quer jogar futebol e não pode porque aquele grupo é de meninos, ela já está vivenciando uma forma de exclusão. Isso também é violência”, afirma.
Ela também alerta que existe uma construção cultural que legitima comportamentos invasivos. Segundo Jade, desde cedo há uma ideia de que meninos podem roubar beijo, puxar cabelo ou tocar o corpo das meninas, comportamentos que acabam sendo naturalizados e reproduzidos ao longo da vida.
Mudanças de comportamento podem indicar violência

A psicóloga e psicopedagoga Carla Doria afirma que a escola é um espaço de interação social intensa e que comportamentos violentos refletem padrões culturais presentes fora do ambiente escolar.
“A escola é um espaço de interação social muito grande. Tudo o que acontece fora também acontece dentro da escola”, explica.
Segundo ela, algumas mudanças de comportamento podem indicar que a menina está sofrendo algum tipo de violência, como queda no rendimento escolar, isolamento social, perda de interesse por atividades ou mudanças repentinas de comportamento.
Carla destaca que apelidos, humilhações e exclusões também devem ser observados com atenção. “Apelidos, humilhação e exclusão são sinais importantes. Muitas vezes são vistos como naturais, mas precisam de intervenção”, afirma.
Consequências podem durar anos
As especialistas alertam que os impactos da violência na infância podem acompanhar a vítima por toda a vida.
Segundo Carla Doria, a violência pode afetar a autoestima, o desempenho escolar e as relações sociais, além de provocar ansiedade, depressão, transtornos alimentares e até evasão escolar.
“Quando o emocional é afetado, isso repercute no desempenho acadêmico e nas relações sociais. A menina passa a se enxergar com baixa capacidade”, afirma.
Jade também destaca que episódios vividos na infância podem deixar marcas profundas. “Uma violência vivida na infância pode se cristalizar na mente em formação e impactar a vida adulta”, diz.
Papel da escola e da família
Para as especialistas, a prevenção depende da atuação conjunta da escola, da família e da comunidade. Segundo Carla Doria, a escola precisa criar espaços de escuta, capacitar professores para identificar sinais de violência e promover ações educativas. A psicóloga também destaca a importância da família no acolhimento e na escuta das meninas.
“A escola precisa validar o que as meninas falam e criar um ambiente seguro”, afirma. Jade reforça que a formação durante a infância é decisiva. “É nesse momento que os limites são estabelecidos e que se constrói a forma como meninos e meninas vão se relacionar no futuro”, conclui.