Uma ação inédita nas ruas de Peixinhos, bairro localizado entre Recife e Olinda, transforma um dos símbolos mais populares do cotidiano em ferramenta de conscientização: o carro dos ovos agora circula para alertar sobre a violência contra mulheres.
O projeto Carro dos Ovos pela Vida das Mulheres é uma iniciativa do Fórum Popular de Segurança Pública de Pernambuco, com apoio do Grupo Comunidade Assumindo Suas Crianças (GCASC) e do Gabinete Jurídico de Apoio às Organizações Populares (Gajop). A ação teve início na segunda-feira, 13 de abril, com uma proposta simples e direta: distribuir gratuitamente bandejas de ovos acompanhadas de materiais educativos que orientam, de forma discreta, como buscar ajuda em situações de violência.
A iniciativa surge em um cenário preocupante. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que ao menos 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil em 2025, uma média de quatro por dia. Em Pernambuco, foram registrados 88 casos no ano passado, número 14% maior do que o do ano anterior.
Mais do que uma ação pontual, o projeto aposta na força do território e na escuta direta da população. O carro dos ovos se transforma em uma plataforma de comunicação popular, levando informação por meio de áudios, linguagem acessível e objetos do dia a dia, como panos de prato e receitas de bolo. Nesses materiais, mensagens de apoio e orientação incentivam, por exemplo, a denúncia por meio do Ligue 180.
“A cada quatro dias, uma mulher foi assassinada por um homem no nosso Estado. Oitenta e oito feminicídios só no ano passado. Essa realidade precisa mudar”, diz um trecho da mensagem que será veiculada no sistema de som.

Durante a ação, moradores e moradoras que se aproximarem recebem uma bandeja com meia dúzia de ovos, além dos materiais informativos, e podem participar de conversas com integrantes das organizações envolvidas.
“A ideia é usar um elemento presente no cotidiano das comunidades para abrir diálogo sobre um tema delicado e urgente. Queremos chegar às mulheres em situação de vulnerabilidade, mas também provocar os homens a refletirem sobre seu papel”, afirma Edna Jatobá.

Com uma abordagem baseada no diálogo e no acolhimento, a ação reforça que a violência de gênero é um fenômeno estrutural, marcado pelo silêncio, pela subnotificação e pela naturalização. Enfrentar esse cenário exige presença nos territórios, acesso à informação e fortalecimento das redes de apoio.
Paralelamente à ação, o GCASC realiza um mutirão de atendimento jurídico em sua sede, na Avenida Nacional, nº 260, em Peixinhos, Olinda. A iniciativa oferece assistência jurídica popular, com encaminhamento de casos de violência de gênero e orientação sobre outras demandas legais. O atendimento acontece das 9h às 13h.
*com Assessoria