Por Teca Nelma
Nos últimos cem anos, nós, mulheres, redesenhamos o mapa do que é ser cidadã no Brasil. Conquistamos o direito ao voto, ocupamos espaços de poder e hoje somos a maioria absoluta nas universidades.
Ver que 60% das pessoas que se formam hoje no país são mulheres é a prova da nossa força, mesmo quando o mercado de trabalho ainda tenta nos frear com salários menores e menos oportunidades formais. Mas a verdade é que, enquanto avançamos nos currículos, retrocedemos na segurança básica: a de permanecer vivas.
O ano de 2025 foi um marco sombrio. Nunca fomos tão assassinadas pelo simples fato de sermos mulheres. Esse dado não é apenas um número, é um grito de socorro de uma sociedade que ainda tolera o intolerável. Como bem diz a Aline Yamamoto, a violência contra a mulher foi naturalizada de um jeito tão perverso que o assassinato, o crime mais grave contra a vida, acaba sendo visto como algo que “acontece todos os dias”, sem que a sociedade pare de verdade para dizer um basta definitivo.
E não dá para separar esse banho de sangue do que vemos nas telas dos nossos celulares. O crescimento do discurso de ódio e dessa cultura “red pill” nas redes sociais não é uma coincidência, é uma construção.
O ódio contra a mulher está sendo monetizado e viralizado. Por isso, eu defendo sem medo: precisamos, sim, de uma regulamentação séria e rígida das redes sociais. Não podemos confundir liberdade com o direito de pregar o extermínio e o desprezo por nós.
A recente mudança na Lei do Racismo, que agora inclui a misoginia como crime imprescritível, foi uma vitória enorme, mas é só o começo. A violência nasce no silêncio e na piada “naturalizada”. Para combater isso, precisamos ser firmes, chocar a inércia do sistema e impor regras que protejam a nossa existência acima de qualquer algoritmo. Em tempos de tanto retrocesso, meu papel continua sendo o de dizer o que deveria ser óbvio: nossas vidas não são negociáveis.