As eleições de 2026 começam a movimentar o cenário político de Alagoas, especialmente entre mulheres que buscam ampliar a representação feminina nos espaços de poder. Em entrevista à Eufêmea, o Coletivo Mulheragem falou sobre violência política de gênero, autonomia feminina, invisibilidade de grupos historicamente marginalizados e a necessidade de ampliar a presença das mulheres nos espaços de decisão.
Formado por Mônica Carvalho e Isis Florescer, pré-candidatas a deputada federal por Alagoas pelo PT, o Coletivo Mulheragem reúne duas mulheres de gerações diferentes que defendem a construção coletiva como caminho para fortalecer a democracia e ampliar a representatividade de grupos historicamente excluídos da política.
A entrevista inaugura uma série especial do Eufêmea com mulheres pré-candidatas às eleições de 2026. O objetivo é apresentar trajetórias, propostas e reflexões sobre os desafios da participação feminina na política alagoana.
NOTA DA REDAÇÃO: As perguntas desta série foram enviadas previamente às pré-candidatas. As entrevistas serão publicadas conforme a ordem de recebimento das respostas pela redação da Eufêmea.
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Quem são vocês? Contem um pouco sobre a trajetória, atuação e como se definem politicamente e socialmente.
O Coletivo Mulheragem nasce do encontro entre duas trajetórias distintas. De um lado está Mônica Carvalho, assistente social, pesquisadora, professora, militante dos direitos humanos, feminista e mulher de matriz africana. Sua atuação foi construída nos territórios, comunidades, terreiros e movimentos sociais, com forte defesa dos povos e comunidades tradicionais de matriz africana em Alagoas.
Do outro lado está Isis Florescer, uma das vozes emergentes da luta LGBTQIA+ em Alagoas. Sua trajetória está ligada à defesa da diversidade, ao enfrentamento das violências e à afirmação do direito de existir e ser representada.
Segundo o coletivo, a candidatura surge da compreensão de que a democracia precisa construir pontes entre diferentes experiências e ampliar a presença de grupos historicamente excluídos dos espaços de decisão.
O que motivou a decisão de disputar um espaço político em um cenário onde mulheres ainda enfrentam violência política, sub-representação e ataques constantes?
A principal motivação nasce da nossa própria base social. Os segmentos aos quais pertencemos e com os quais construímos nossa trajetória, mulheres, população LGBTQIA+, povos e comunidades tradicionais, movimentos sociais e defensores dos direitos humanos, ainda estão longe de possuir representação proporcional nos espaços de poder.
A frase que mais escutamos ao longo desse processo foi simples e direta: ‘Precisamos de nós lá’. A pré-candidatura do Mulheragem não surge de uma decisão isolada ou repentina. Ela é resultado de anos de atuação política, social e comunitária, de escuta, formação e construção coletiva.
Sabemos que as mulheres seguem enfrentando violência política, ataques e tentativas permanentes de deslegitimação de suas vozes. Mas é justamente por isso que mais mulheres precisam ocupar esses espaços. A sub-representação não será superada pela ausência. Ela será enfrentada com presença, organização e participação política.
Muitas candidaturas femininas acabam sendo cobradas apenas por representatividade. Para vocês, qual deve ser o papel concreto de uma mulher na política além da presença simbólica?
O diferencial que defendemos é a necessidade de ampliar a presença das mulheres nos espaços onde essas decisões são tomadas. Hoje, Alagoas possui nove cadeiras na Câmara dos Deputados e nenhuma delas é ocupada por uma mulher.
Isso significa que as mulheres alagoanas permanecem ausentes dos espaços onde são discutidas e definidas políticas fundamentais para suas vidas.
Defender a autonomia feminina passa também por garantir que as mulheres participem da construção das soluções para os desafios que enfrentam diariamente.
Quais grupos de mulheres seguem mais invisibilizados nas políticas públicas em Alagoas hoje? Por quê?
Embora existam avanços importantes na formulação de políticas públicas para as mulheres, ainda há uma grande distância entre a existência dessas políticas e sua capacidade de alcançar quem mais precisa delas.
Quando esse processo enfraquece, quem primeiro sente os impactos são as mulheres periurbanas, mulheres do campo, mulheres LBT, mulheres de povos e comunidades tradicionais e mulheres de matriz africana.
Muitas vezes, essas mulheres aparecem nas estatísticas, mas continuam ausentes dos espaços onde suas realidades são compreendidas e suas demandas são formuladas.
O desafio não é apenas criar políticas para as mulheres. É reconhecer a diversidade das mulheres alagoanas e garantir que essa diversidade esteja presente na elaboração, no acompanhamento e na avaliação dessas políticas.
Como vocês pretendem se posicionar diante de pautas relacionadas à violência contra a mulher, desigualdade salarial, direitos reprodutivos e autonomia feminina?
Todas essas pautas estão profundamente conectadas. Quando falamos de violência contra a mulher, não estamos tratando apenas da violência física. Estamos falando também das barreiras econômicas, sociais e institucionais que limitam a liberdade feminina.
Por isso, acreditamos que a autonomia das mulheres deve ocupar um lugar central nesse debate. É a autonomia econômica, educacional, social e política que permite que uma mulher rompa ciclos de violência, tome decisões sobre sua própria vida e exerça plenamente seus direitos.
Discutir igualdade salarial, acesso à saúde, direitos reprodutivos e políticas de cuidado não significa tratar temas isolados, mas enfrentar diferentes dimensões de um mesmo problema estrutural.
Defender a autonomia feminina passa também por garantir que as mulheres participem da construção das soluções para os desafios que enfrentam diariamente.