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A nova esperança para mulheres que vivem presas ao trauma

Por Vanessa Albuquerque, Psicóloga, Sexóloga e Educadora em Sexualidade

“Eu já fiz terapia.” “Já tomei remédio.” “Já tentei de tudo.”

Essas são algumas das frases que mais escuto de mulheres que convivem há anos com depressão, ansiedade intensa ou com os efeitos de um trauma que parece nunca desaparecer.

Muitas carregam histórias de violência sexual, abuso na infância, relacionamentos abusivos, violência doméstica, abandono emocional ou anos de sobrecarga silenciosa. Sobreviveram, construíram carreiras, criaram filhos e seguiram trabalhando, mas sentem como se uma parte de si tivesse permanecido presa ao passado.

Hoje, a neurociência mostra que o trauma não é apenas uma lembrança dolorosa. Ele pode modificar o funcionamento do cérebro e de outros sistemas do organismo, afetando a regulação das emoções, o sono, a resposta ao estresse e até processos inflamatórios.

Talvez por isso tantas mulheres digam: “Eu sei que estou segura, mas meu corpo continua vivendo como se o perigo ainda existisse.”

Essa compreensão mudou a forma como a ciência trata o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) e a depressão resistente. O objetivo deixou de ser apenas aliviar sintomas e passou a incluir a recuperação da capacidade do cérebro de se adaptar e criar novas possibilidades de resposta.

É nesse contexto que surge a cetamina. Estudos têm demonstrado resultados promissores em pessoas que não responderam aos tratamentos convencionais, especialmente nos casos de depressão resistente e, em algumas situações, de transtornos relacionados ao trauma.

Mas é importante esclarecer: a cetamina não apaga memórias, não elimina traumas e não substitui a psicoterapia. Ao favorecer a neuroplasticidade — a capacidade do cérebro de formar novas conexões —, ela pode reduzir temporariamente a rigidez do sofrimento emocional e abrir uma janela de oportunidade para que o paciente consiga se beneficiar do processo terapêutico.

Seu uso, porém, deve ser sempre indicado e acompanhado por médicos especializados, dentro de um plano terapêutico individualizado.

Como psicóloga, reforço que nenhum medicamento substitui a elaboração emocional. A psicoterapia continua sendo essencial para ressignificar experiências, fortalecer recursos internos e reconstruir a autonomia.

Ao mesmo tempo, é preciso abandonar a ideia de que todo sofrimento depende apenas da força de vontade. Muitas mulheres permanecem adoecidas não apenas pelo que viveram, mas também porque continuam expostas à violência, à sobrecarga, às desigualdades e a relações que mantêm o estresse constante.

O trauma, muitas vezes, não é apenas um evento do passado. É um contexto que continua presente.

Talvez esse seja o maior avanço da neurociência: compreender que o tratamento do trauma não depende de uma única ferramenta, mas da integração entre psicoterapia, psiquiatria, recursos biológicos, vínculos afetivos e mudanças nas condições de vida.

Nesse cuidado integrado, a cetamina pode ocupar um papel importante para algumas mulheres, sempre como parte de um tratamento amplo e baseado em evidências.

A boa notícia é que a ciência continua avançando e, quando um tratamento não funciona, isso não significa que não exista tratamento.

Sobreviver ao trauma é um ato de resistência. Recuperar a esperança é o primeiro passo para voltar a viver.

Vanessa Albuquerque é psicóloga, educadora em sexualidade e palestrante, com atuação voltada à clínica e à promoção do autoconhecimento, da liberdade emocional e do resgate da identidade feminina. Também é supervisora de psicólogas e desenvolve projetos voltados à educação e ao desenvolvimento de mulheres.

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