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O voto feminino nunca foi tão caro, e as mulheres tão descartáveis

Por Thati Nicácio

“O voto feminino será decisivo em 2026.”

A frase, repetida como mantra por estrategistas, marqueteiros e dirigentes partidários, carrega uma revelação que diz mais sobre eles do que sobre nós: os homens que disputarão as eleições finalmente descobriram que as mulheres votam e compõem mais da metade do eleitorado brasileiro. Descobriram tarde, descobriram por interesse, mas descobriram.

Enquanto a direita se perdia na insanidade das pautas de costume, a esquerda se ocupava em demonstrar sua própria virilidade política da forma mais tradicional e primitiva possível. Discussões acaloradas, bate-bocas televisionados, performances de força. Tudo para provar que também possuem testosterona suficiente para o jogo.

E, no meio desse teatro, forçam a construção da imagem de “amiguinhos das mulheres”, mas só das que se mantêm subservientes, das que assessoram, servem, aplaudem, bajulam. Jamais como parceiras políticas. Jamais como protagonistas.

Se há algo tão míope quanto a síndrome de protagonista do homem de direita, é a síndrome de protagonista do homem de esquerda. E, nesse ponto, eles se encontram, caminham juntos e fortalecem uma política onde mulheres são acessórios na projeção dos homens, os “verdadeiros” detentores do conhecimento político.

Não estou opinando. Estou descrevendo um caminho explicitamente posto diante de nós.

Enquanto o Brasil jogava contra a Escócia, Michelle Bolsonaro dominou a opinião pública com um vídeo em que expunha os conflitos com o núcleo masculino de seu partido e de sua família. Ela reivindicava três vagas ao Senado. Essas vagas colidiram com interesses de homens, incluindo a articulação no Ceará, que rifou uma delas para garantir Ciro Gomes na aliança, opositor declarado do ex-presidente.

Michelle viveu seu momento Serena Joy, a personagem de O Conto da Aia que ajuda os homens a construir um regime e descobre, tarde demais, que não há espaço para sua fidelidade em um mundo onde mulheres são tratadas como inferiores. Ela segue vivenciando os ataques de quem achou absurdo uma mulher romper o silêncio que fragiliza a extrema direita nacional.

Ainda este ano, a pastora Helena Raquel ousou utilizar o púlpito dos Gideões, que reúne cerca de 200 mil fiéis presencialmente e alcança mais de meio milhão de pessoas pela TV e internet, para falar de violência doméstica e abuso sexual infantil. Foi alvo de ataques no meio evangélico, que acredita que esse é um problema que não deve ser exposto.

A mensagem não fez curva: certas dores não devem ser nomeadas no meio conservador. Mulheres não devem falar ao povo sem combinar com os homens.

Mas não se iludam achando que as mulheres da esquerda estão protegidas do machismo sexista que violenta nossa existência e dificulta nossa atuação pública. Constantemente, os projetos encabeçados por mulheres são desqualificados e descaracterizados internamente nas estruturas partidárias.

A construção política não foi pensada para nossa ocupação, e os homens que a construíram não têm pressa em reformá-la.

O relatório MonitorA 2024, produzido pelo InternetLab em parceria com o Instituto AzMina e outras organizações, analisou milhões de menções no Twitter/X e trouxe evidências de algumas violências que enfrentamos. Não se trata de divergências políticas acaloradas. Trata-se de uma estratégia coordenada de exclusão.

Os dados revelam que as mulheres na política não são atacadas por suas propostas ou ações políticas, mas sim por sua identidade ou por não se conformarem às expectativas sociais impostas. A violência é sobre quem elas são, não sobre o que defendem.

O relatório identificou que os ataques se concentram em narrativas específicas: subordinação a figuras masculinas, com mulheres sendo reduzidas a “esposa de”, “filha de” ou “apadrinhada por” homens; estereótipos cisnormativos contra candidatas trans, que sofrem deslegitimação baseada exclusivamente em identidade de gênero; aparência física como instrumento de desqualificação, com comentários sobre corpo, roupa, cabelo e maquiagem; etarismo, com mulheres sendo enquadradas como “velhas demais” ou “novas demais” para a política; e o clássico enquadramento como loucas ou histéricas, emocionalmente instáveis para os “grandes debates”.

A implicação política disso é grave e acaba orientando todas as campanhas eleitorais femininas: candidatas precisam se preparar não para críticas programáticas, mas para ataques pessoais e identitários.

Mais grave ainda é o que isso representa para a democracia. O MonitorA 2024 é categórico ao afirmar que a violência política de gênero online busca ativamente excluir vozes dissidentes do debate democrático. Cada mulher silenciada, cada candidata que desiste, cada liderança que some representa menos diversidade no espaço público, menos representatividade nas decisões e menos conexão entre o Estado e as dores reais da sociedade.

Em Alagoas: elas brilham, ascendem e somem

Alagoas tem quadros incríveis. Mulheres que brilham, ascendem e desaparecem. Não por falta de competência, não por derrota nas urnas, mas por um desgaste que vem de dentro, do pacto que opera silenciosamente nos corredores partidários.

Jarede Viana só foi respeitada em memória. Quem conviveu relata as diversas violências sofridas por uma das mulheres mais importantes da história política de Alagoas.

Heloísa Helena, com toda sua personalidade forte, foi massacrada pela lógica de construção dos homens da esquerda alagoana.

Lenilda Lima, primeira candidata a governadora pelo PT de Alagoas em 2006, não quis mais enfrentar outra batalha daquelas para se construir politicamente em espaços que extrapolassem o partido e o movimento sindical.

Amélia Fernandes e Rilda Alves, ex-presidentas da CUT-AL, foram espremidas até sumirem dos periódicos alagoanos.

Claudia Petuba e Angela Stemler, ex-secretárias de Estado indicadas pelo PCdoB em Alagoas, foram escanteadas por uma lógica que beneficia a machosfera do partido.

Lu Araujo, do PSOL-AL, se afastou do dia a dia da política após entender que o espaço para crescimento era estreito demais para caber alguém do tamanho dela.

Eu mesma disputei e saí da campanha de 2018 com ansiedade por toda a violência que passei internamente, mesmo sabendo que minha campanha serviria para ajudar o projeto e a chapa. Até a aposta de que eu não passaria dos 500 votos tive que ouvir de homens que deveriam ser minhas lideranças políticas e eu deveria nutrir respeito.

Vivenciar esse tipo de violência cotidiana cansa. E não é exceção, é regra.

Não estou colocando aqui todas as grandes mulheres alagoanas, mas apenas alguns exemplos das que igualmente se desgastaram com a longa e violenta disputa. E não foi contra grandes estratégias adversárias. Foi contra o pacto patriarcal que, incontestavelmente, luta para nos lembrar de qual espaço os homens esperam que ocupemos.

O que todas essas mulheres compartilham? São grandes quadros políticos da esquerda em Alagoas condicionadas a ficarem em um espaço pequeno ou sumirem da política, precisando enfrentar o conservadorismo fora e dentro dos próprios partidos políticos.

Na maioria das vezes, acabam se afastando da disputa por violências mais internas que externas. Vivenciar uma disputa contra o projeto de oposição é simples. Difícil é ser violentada internamente, de diversas maneiras, no projeto que construímos, e ainda ser obrigada a permanecer silente para não prejudicar o “macro”.

Agora mesmo as chapas eleitorais estão sendo montadas e 30% delas está fora das discussões.

Eles não enxergam mulheres como sujeitos de direito, apenas como máquinas gestacionais

Percebi algo curioso ao longo desses anos: utilizam o lugar de filhos e das mães como conexão com as mulheres. E, aparentemente, é o único público feminino passível de respeito para esses homens.

Eu vim da igreja, saí da Assembleia de Deus, e sei exatamente como a pauta materna funciona com o público.

A direita usa a pauta moral como se fosse o maior trunfo, mas, se você der um minuto para uma irmã falar sobre sua dor, jamais será sobre banheiro trans. Será sobre violência doméstica, sobre ausências do Estado, sobre o filho que ninguém acolheu, sobre a solidão, sobre o abuso que sofreu e nunca pôde nomear.

Nós provamos, com a tentativa de aprovação da PL do Estuprador, que a pauta sobre interrupção da gravidez de crianças vítimas de violência sexual não é tão difícil de ser explicada para as mulheres quanto a maioria dos homens faz pensar quando elaboramos materiais sobre saúde reprodutiva.

A dificuldade está no medo deles, no pacto que insiste em “suavizar” a pauta da mulher nos planos de governo.

Eu já escrevi a estrutura de gênero de alguns planos de governo e posso afirmar: a pauta da mulher é sempre negociada para não chocar, pois qualquer solicitação de direito que não passe pela aprovação masculina é considerada agressiva.

A paridade de direção é questionada onde existe. A cota de 30% é frequentemente alvo de tentativas de flexibilização, da direita à esquerda.

Existe uma conexão direta com o fato de que mulheres que não aceitam ser laranjas brigam para que a cota seja cumprida corretamente, e isso fere o pacto masculinista que entende que não deveríamos ocupar esse lugar ao lado deles.

Enquanto isso, os homens estão sempre “prontos”: mesmo sem base, sem formação, sem histórico político. Simplesmente surgem e são abraçados e fortalecidos por esse mesmo pacto que nos exclui.

Sem nós, qualquer projeto está fadado ao fracasso

Escantear mulheres não é apenas uma violência contra as figuras políticas que disputam espaço de poder e decisão com vocês. É a pior estratégia possível para quem quiser vencer a batalha nas urnas.

Porque somos nós que carregamos a conexão com as dores reais do que é ser mulher nesta sociedade, dores que vão muito além da maternidade. Dores que passam pela violência doméstica que assola os lares brasileiros, pelo medo de andar na rua, pela sobrecarga do trabalho invisível, pela ausência de proteção e pela sub-representação em todos os espaços de poder.

As mulheres que nos atacam sabem dessas dores. As que votam também sabem.

Cada mulher que some da política é uma ponte rompida entre o Estado e a vida real. É menos proteção, menos escuta, menos projeto de futuro. É a democracia sendo amputada lentamente, enquanto os homens debatem entre si o que é melhor para todos eles.

O relatório e várias pesquisas sobre sub-representação mostram que a violência política de gênero é uma ferramenta de exclusão democrática. E os exemplos que trouxe aqui, de Alagoas e do Brasil, mostram que essa ferramenta opera também nos bastidores, nas negociações partidárias, nas listas de candidaturas, nas vagas rifadas e nos silêncios impostos.

O pacto não está apenas nas redes sociais. Está nas salas fechadas onde as decisões reais são tomadas.

Este texto não é um desabafo. Não é uma opinião. É um chamado.

Que comecemos juntas o matriarcado iniciado por nossas ancestrais Acotirene, Dandara, Nise da Silveira e nossa sufragista Almerinda Gama. Não como vingança, não como inversão de opressão, mas como refundação de uma política que nos reconheça inteiras: eleitoras, candidatas, lideranças, estrategistas e protagonistas.

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